Não há nada que se possa fazer. O poste está ali, a esquina pesada, imóvel, e a luz que se acenderá ao final da tarde antes que alguém ou algum carro passe, e o círculo de luz formado aos poucos no chão permanecerá vazio.
Mas não a lâmpada no alto, no terceiro andar. Não essas mãos que abrem a cortina e espiam, diante da noite, uma estrela perdida. E olham para trás, para um corpo que se estende no chão e que há pouco tempo se exauriu em gozo por algo que nem bem conhece, mas que vale — pode ser — um último olhar, talvez um presságio, uns passos em direção à rua deserta.
Caminhos
Necessariamente há quatro caminhos.
O primeiro, que se vai por detrás da pequena casa de tijolos com grossos troncos de madeira e telhado inclinado demais; o segundo, uma alameda ao lado de uma hospedaria que nunca recebe ninguém, perdida que está nesse lugar sem visitantes; o terceiro — na verdade uma estrada, mas de terra batida, muitos animais atravessando e quase nenhum veículo; e, finalmente, o quarto, que ninguém sabe onde é, mas que, com certeza, é o único que pode tirar todos daqui (até o padre que me confessou ser o único a querer abandonar o lugar) sem que haja nenhum trauma, nenhuma marca, a não ser, talvez, essa que vislumbro agora pelo vidro, e que se aproxima com tal rapidez que não vejo a hora de, eu também, descer as escadas levando meus papéis comigo.
Hotéis
"É aqui?", perguntei, um pouco surpreso.
O homem não respondeu. Apenas esticou a mão rumo à enorme porta de madeira escura com aldrava de ferro, aberta, e uma escada entre dois corredores.
Não sei por que não estava carregando nenhum pertence, nenhuma valise, e pensei no verdadeiro sentido daquela estada ao subir aqueles lances pesados, sem que houvesse alguém me esperando, ou uma placa indicando "Hotel", algo que se parecesse a uma cidade e uma viagem como qualquer outra.
Abri a porta do que deveria ser um quarto. Então a luz do sol que entrava pela janela me ofuscou a visão, pois tudo naquele interior era branco, e não havia armário, nem cabeceira, nem uma mesa para escrever, apenas a cama e uma pia.
E ainda pude olhar lá embaixo, quando o homem se afastava e o cocheiro chicoteava o cavalo com fúria, o que me repugnou a ponto de virar-me e ver minha imagem no espelho.
Então, com uma rapidez vertiginosa, comecei a compreender.