Mulher azul (fragmentos)

Chegando em casa à noite, toda a mata exalava silêncio. No meio da estrada, estatelado no asfalto, um gambá. Me aproximei. O corpinho dele de lado, os pêlos parecendo espinhozinhos finos, o rabinho pelado e dois olhinhos pretos. Os olhinhos ainda brilhavam, úmidos. Estacionei, abri a porta, sentei na poltrona com as luzes ainda apagadas.

Se eu cantasse, tremia.


A sensação que mais me aflige é a de ter tanto, estar sobrecarregada de coisas para compartilhar, para ceder, e morro com tudo isso em cima de mim numa vala do grande deserto.


O passarinho despencou na sacada. Começou a se agitar no chão de madeira, sacolejando, mas não saiu dali. Me aproximei como quem quer roubar algo. Tinha medo de desmontá-lo, e ele ali, sem forças, num espaço que não era o dele. Dei mais um passo. Ele tentou voar, mas não pôde. Então, o agarrei. Ele quis se debater, eu agüentei. Meu coração pulava com aquela vida quente nas mãos. Todo um céu se concentrava ali, naquele vôo latente. Os olhinhos pretos dele espiando o mundo. Então, como quem não crê em mais nada, voamos.