Silêncios

Segundo Foucault, o homem, como objeto de um saber histórico, está desaparecendo.
A literatura é um aceno.


A poesia não é mais um gênero: ela agora é o discurso deixando de ser.


A poesia, sendo mais exigente, não corre o risco de desaparecer: corre o público.


 

Depois de Auschwitz, a poesia é possível, provável e quase desnecessária.


A poesia não é estética, nem política, nem intimista, nem formalista, nem intuitiva, nem calculada, nem emotiva, nem social: ela não é.


Valéry: "perfeição é trabalho."
Borges: "a página perfeita é a mais precária de todas."
O poema deve ser boêmio.


Edgar Allan Poe: "Não existe paixão por natureza tão demoniacamente impaciente como a de quem, arrepiado à beira de um precipício, contempla um mergulho."
A paixão do poema salta.


A poesia não existe só para "perturbar": ela também pode confortar — desde que seja um conforto de faquir.


A poesia poderia estar ligada à vida: ela só não pode é ressuscitar ninguém.


Poe morreu bêbado; Rimbaud, doente; Iessiênin e Maiakovsky se mataram. Ok, poesia: você venceu.


A poesia é para iniciados, mas que estão chegando ao fim.


O poema é a linha-limite entre o querer dizer e o não dizer palavra.


O poema é escrito sob esse controle: tudo nele escapa, e o autor, por detrás dos sentidos, finge ignorar o que deveras ignora.


 

O êxito de um poema só pode começar com a reivindicação de que ele é um fracasso.


A poesia já perdeu quase todas as batalhas. Falta perder-se.


A poesia que se aproxima do corpo é aquela que recusa o "bem-estar".


O artista tem que criar o que há dentro dele. Como ele busca sempre o novo, o fato de estar perdido não é nenhuma novidade.


Só há uma maneira de ser "marginal": ser institucional.


 

Não é que me incomode ter só dúvidas: me incomoda é essa certeza.


O pensamento "crítico" não pode esquecer a dialética porque, de início, teria que abandonar a tese.