Santa e Cretina Catarina

Do estado de degeneração social acentuada e acelerada em que nos encontramos, um dos pérfidos resultados é a destruição da cultura. As civilizações morrem – todas –, e o único que permanece para dar testemunho da riqueza e da complexidade das sociedades humanas são as obras culturais e de arte, diz Lévi-Strauss. Não há lugar para a discussão e a reflexão sobre os grandes temas e problemas do ser humano nos jornais, nas revistas, na TV, muito menos na rua, mas sim nos livros, nos filmes, no teatro, na música, nas artes plásticas e gráficas, na Filosofia, enfim, na cultura em geral. Por isso, a criação cultural é o que mais ataca a mediocridade e a exploração a que cada vez mais somos submetidos, dentro desse empobrecimento global não só do pensamento, mas igualmente o aguçado pela economia do FMI, do Banco Mundial, do capital financeiro e dos governos “nacionais” agiotas e corruptos.

Para que a cultura nessa realidade? Para os donos do poder, ela deve ser arrasada, como quer todo fascismo. Num país eternamente endividado e loteado pelas corporações estrangeiras, os governos estaduais e municipais fazem o trabalho “local” de destruição. Para Henri Michaux, o artista é aquele que resiste à pulsão de não deixar rastros. O “programa cultural” dos governos atuais é apagar esses rastros, de modo que só o que sobre sejam migalhas de produtos podres disfarçados de arte.

Aqui em Santa Catarina, esse projeto vem arrastando os recursos, humanos e financeiros, para a vala das “prioridades”, quer dizer, formas de manutenção do poder e estratégias politiqueiras de reeleição, o que inclui propaganda e marketing. Nos órgãos estaduais da cultura, faltam materiais, papel para impressão, verbas e funcionários. Os responsáveis bem-intencionados por projetos e gestão cultural têm as mãos impotentes para qualquer coisa, dada a indigência que atacou todas as instituições. Não há nenhuma política pública para a cultura neste Estado, a não ser fora do governo, como é o caso do SESC.

A Fundação Catarinense de Cultura está inerte, e o governo tem o cinismo de propor sua “municipalização”. Tudo isso é coerente com um Estado que elege os governadores e os prefeitos da capital que temos visto. Há uma ignorância geral, como numa espiral: analfabetos culturais elegem governos de direita que jogam a cultura no lixo, num Estado sem bibliotecas, livrarias, editoras, centros culturais, mas cheio de universidades privadas.

O resultado é um processo de embrutecimento que faz com que Santa Catarina seja cada vez mais um “produto” do mais violento “turismo” que arrasa o meio ambiente e gera lucros para uns poucos.

Quanto à criação artística, o pensamento, a reflexão política e filosófica, e a educação, entramos numa era de ruínas, em que o corpo social sofre de um “cretinismo”, que, segundo o Dicionário Houaiss, é sinônimo de “perturbação grave do desenvolvimento físico e intelectual, imbecilidade, idiotice, estupidez”.

(Texto publicado no Jornal Ego nº 5, 2005, e no jornal Linha Viva, a Intersindical dos Eletricitários de SC, nº 835, 206.)