Palavras na penumbra (fragmentos)

Baixar a obra integral - Palavras na Penumbra8

A lancinante espera e o doce espanto
convergem em meu espírito com sede.
Cada minuto vasto é um acalanto
que dói e me aprisiona como rede.

A folha virgem, hóspede da fome,
degusta a concisão dessa paciência.
Essa clara vertigem não tem nome,
mas do seu vil papel me dá ciência.

Tempo senil, horas em desalinho,
que varrem do meu corpo a tez serena
e levam-me à procura de outro vinho.

E o brinde faz-se, sílaba calada,
sabendo a amarga e duradoura pena:
palavra escrita, vida derramada.


4

Escuto esse piano e me entristeço
como a chuva que cai neste domingo.
Escuto, e vibra em mim o que não esqueço:
uma dor que me abraça, e eu não me vingo.

O som da chuva, estranha melodia,
sem um compasso, só silêncio e espera,
dilui nas horas minha melancolia
como o andar furtivo da pantera.

Escuto esse piano e então escrevo
na página fugaz, com alguma pressa,
algo que não tem nome nem relevo:

apenas essa dor que me distrai
como águas caindo rumo ao mar —
chuva que sempre chega, nunca sai.


52

Página perversa a que me acompanha.
Sempre vazia, quase um abandono,
e quando aberta, com fome tamanha,
parece um grito a perturbar meu sono.

Cada palavra muda que articula
se desfaz na brancura de sua pele.
E um silêncio de sutil textura
dilacera esse gesto que me impele

ao seu convívio. Vivo a insensatez
do vício, entre a escrita e o dia-a-dia,
buscando algum tipo de embriaguez.

E quando tento, em verso, dar meus ais,
esse papel, qual corvo branco, diz
de minhas tentativas: "Sempre mais".