Gravuras

Para Lu



Le graveur véritable commence son œuvre dans une rêverie de la volonté
Gaston Bachelard



Assim na placa o externo instante grava
Seu ser, durando nela.

Ricardo Reis
(Fernando Pessoa)





I

há um metal
no meio do caminho

no meio do metal
há um caminho



 
II

os veios do metal:
no fim da luta vã
qual mão e luva



 
III

a placa em chamas:
na corrosão do tempo
(correção do mundo)
não há dor
(o artista
é um tingidor)



 
IV

marcas do desejo:
na dureza do branco
a memória se esvai:
paixão e preto



 
V

papel e grão:
no ácido do mundo
a leveza da terra



 
VI

o gravador que ousa
a sua presença no branco:
pássaro que pousa



 
VII

mancha que se entrega
e o que grava fica nu
(o desenho da sombra do bambu)



 
VIII

mãos em delírio
máscara que cai
gravura:
a lua (lírica) sorri



 
IX

o mundo e sua ponta-seca:
o esquivar-se impor
a cor da lã e do regaço:
pedaço de papel
              e dança



 
X

nudez da gravura:
pelas areias
                            da memória
montante de lua
                            reluz
no escuro das horas



 
XI

metalibido:
na imagem se desfaz
qual chama num espelho
um desejo fugaz



 
XII

o zelo clássico das mãos:
              conter o ácido
              im placável
                            os elos
do desejo
              nos
                            des vãos




XIII

fugaz
              ponto de fuga:
: um laço azul
              desfaz em nós
o
              mundo
                            vio lento
                                          (lace-o)



 
XIV

a prensa em fogo:
todo desejo
funde-se
              entre provas

relevo em cor
exímio  frágil fixar
todo tesão
              jamais
abolirá o acaso



 
XV

gravura e poema
namorando no outono:
lago e folha seca