Pequenos ensaios

Utilidade da crítica e da Filosofia

A crítica – como a filosofia – não tem nenhuma utilidade, salvo para criar no leitor a sensação de compreensão de um determinado texto ou uma criação plástica. A crítica ainda é iluminista, humanista, vinculada à hermenêutica e à dialética. A produção artística se desenvolve ao largo, fora da crítica, como espaço de devaneio ou ficção, assumindo a responsabilidade de uma autenticidade diante do leitor ou do espectador (não importa se são poucos). O jogo com o acaso, a intuição e o leque de leituras possíveis incitado por uma criação textual ou plástica não procuram vender uma ilusão, mas acusá-la: a crítica pertence a um pensamento logocêntrico, ainda vinculado ao tempo linear e cristão, e à idéia da “descoberta”. Para os artistas, o essencial é renunciar à crítica, o que significa: abdicar do poder.


Definição da poesia

A poesia não cai na classificação da crítica, pois ela foge às tentativas de determinação. Ela não está entre o “classicismo” e o “romantismo”, entre o “objetivo” e o “subjetivo”, entre o “espontâneo” e o “construído”: ela escapa a essas simplificações que pretendem “defini-la”. A poesia não é tampouco uma “essência” que daria o selo de “poema” a um texto – como quer Octavio Paz, atrelado a uma idéia metafísica, idealista da poesia.

A poesia não tem essência, ela é uma criação como as artes plásticas e pode se disfarçar de prosa, de texto jornalístico, comentário de filme, desenho, teatro – até de poema. A poesia é um discurso que se recusa a ser. Os que querem defini-la, classificá-la, estudá-la sempre são decepcionados. Em todo caso, a empresa é inútil: a poesia não se presta ao discurso da crítica nem dos poetas que se fazem de críticos. A poesia não é.


Essência da arte e da poesia

Se pensarmos que tanto a poesia quanto as artes plásticas podem ser tudo e, portanto, perderam qualquer possível “essência” tão buscada inutilmente por séculos de crítica, por que uma folha caída no chão não pode ser “arte”?

Ela pode, mas como os artistas ainda estão presos a outra idéia – a da autoria –, eles só admitem a folha – ou o urinol, ou a roda de bicicleta – assinada por alguém.

Tanto faz: folha caída ou criada na xilogravura, ela é algo que nos desvia. Ocorre que o ato de criar um desvio é “prerrogativa” do artista, daí a importância dada a ele – por exemplo, pelo mercado. E quando vemos uma criação artística, o ato, o comportamento do artista nos influencia: não podemos ser folha, mas podemos agir de uma maneira outra, como esse pintor ou aquele poeta.

Portanto, mais do que a natureza, é arte, para nós, o desvio incitado por alguém: um jogo de intersubjetividade.


A arte e o futuro

A arte do mercado e das instituições, a moda, o cinema poderoso, o casamento, a crítica, são espaços de intervenção social em que se opera um simulacro de mundo justificável. Se não déssemos mais importância às jurisdições do mercado, das instituições culturais – entre elas a crítica, a literatura, etc. –, às aparências da moda, aos falsos ataques do cinema à moral vigente, à sacrossanta instituição do casamento ou do “amor”, em que nos agarraríamos? Já se tentou a idéia de “vanguarda”: ela arrasaria todas as instâncias anteriores, “velhas”, para criar o novo.

É que faltava desacreditarmos de uma última instituição: a do futuro.


O artista e a “carreira”

Ter uma “carreira” intelectual ou artística implica crer na possibilidade de intervir no social, de essa carreira possuir uma utilidade e de nos tornarmos, por nossos méritos, alguém necessário. (Carreira significa correr, e o que mais se vê, realmente, é uma correria pelo poder.) O professor universitário, o crítico ou o artista famoso são exemplos dessa corrida pelo poder. Renunciar ao poder não significa, entretanto, abandonar a criação (Rimbaud) nem investir contra as instituições culturais – isso seria acreditar no mesmo: não numa carreira “oficial”, mas “marginal”. Mas talvez se possa imaginar uma farsa instigante: devolver à ficção do poder o simulacro de uma ação negativa, tão fugaz que escape à possibilidade de se fazer também dela um exercício de poder.


Arte para quem?

É claro que o artista ou o poeta não trabalha para o inútil: ele espera que alguém o compreenda ou compartilhe alguma idéia, hoje ou amanhã, ou daqui a cinqüenta anos, aqui ou a milhares de quilômetros daqui. Não se trata de acreditar na “popularização” da arte nem num futuro “reconhecedor”: a arte não se destina à massa nem ao futuro. Ao insistir em criar, o artista não procura “influenciar” ninguém, mas estabelecer um diálogo com aqueles que já rondam o espaço da perda, da paixão e da alteridade.


O “novo” na literatura

Querer escrever algo “novo” é uma estupidez; resta-nos escrever sobre nós, sobre nossas obsessões, angústias, temas recorrentes – a escritura é pessoal, é corporal –, e se meu texto se parece com o de outros escritores, tanto faz: parece que temos algo em comum, e isso me aproxima deles, e é bom. Querer escrever algo próprio, meu, cujos temas e provocações são sempre os mesmos, é uma desculpa para não tentar algo novo, outro texto, outro trabalho, e corro o risco de, por preguiça, não escrever nada mais sério, mais trabalhado do que as coisas que escrevo agora.


A conversa enviesada da literatura

Sempre me incomodou o fato de um escritor se mostrar por inteiro e eu concordar com ele, querer dividir coisas com ele – como Cortázar – e não poder, porque não conheci Cortázar, não convivi com ele – só com seus textos. No final das contas, o que me interessa é o Julio, não Rayuela. Talvez então a literatura seja a possibilidade de conviver a distância – no tempo e no espaço. Dizer que a literatura não deve ser “pessoal” é falso. A literatura é inteiramente pessoal, mas como não posso sentar com alguém num bar e, de repente, começar a conversar sobre o tempo e a morte, escrevo, e alguém vai ler, e vai pensar sobre o tempo e a morte. A literatura é uma contradição: não falo com ninguém sobre o tempo e a morte, escrevo sobre isso, e reclamo depois que, por não ser lido, não consigo discutir sobre esses temas com ninguém.


A literatura e a vida

Quando Sebastião Uchoa Leite afirma que “a poesia, para ser viva, não precisa falar da vida”, tem razão. Mesmo porque o fato de um escritor visitar o Oriente ou a cultura medieval em seus textos não significa que eles não estejam permeados de vida, de sua vida. Mas me intriga essa recusa. A literatura, então, teria o status de algo fora da vida pessoal, cotidiana, autobiográfica. Os diários de Anaïs Nin seriam contestados como literatura. Hemingway seria considerado um escritor não por causa da presença de sua vida nos textos, mas apesar dela. Ora, mas como a vida fatalmente aparece (parodiando Borges acerca do nacionalismo literário, eu diria que a literatura é necessariamente vital, ou querer ser “vital” é uma farsa...), a opção por tratar mais diretamente dela ou não é uma questão eminentemente... Pessoal!. Clarice Lispector se livrou da máscara de “escritor” para assumir simplesmente a identidade de alguém que escreve. Pensando em Foucault, eu poderia dizer que Clarice vai, aos poucos, abandonando a função “autor” (mesmo percurso realizado por Cioran, que quase foi “filósofo” algum dia). Cortázar fez uma literatura que o delata, embora tenha investido no fantástico. Mas tudo isso, como afirmei, é uma opção pessoal. Ou seja: por uma visão das coisas, García Márquez quer falar de um mundo narrável, enquanto Clarice fala de si e das questões humanas que a afligiam. Eu, pessoalmente (redundância sábia que usamos em português), me sinto um pouco impostor – ou incapaz talvez – ao tentar narrar o mundo, e me parece bobo o jogo de descobrir que por trás do personagem X há tais idéias, tais tramas. A literatura serve para divertir e encantar, talvez até demais. Eu busco algo fora da literatura: procuro a comoção do instante, da frase, da idéia rebatida ou saboreada, da textura de uma emissão verbal (vocal) ou de um acerto no alvo. Ou, se é algo narrado, prefiro os contos que são granadas, doces, cestas de surpresas, como Borges, Kafka, Cortázar e mesmo Clarice (claro está, Machado de Assis como em “Missa do Galo”), que parecem pintura.


Modernidade e absurdo

Décadas atrás, alguns escritores e artistas acreditavam num tempo aglutinador de experiências para a criação. Era a época das crenças e dos grupos ávidos por trabalhar contra algo, construindo projetos. O futuro ainda existia.

Hoje, vivemos sobre escombros do entusiasmo. A realidade tornou-se tão fictícia que parece incongruente atacá-la em grupos. Poucos são os espaços públicos onde se exerce a arte de experimentar novos comportamentos, novas sensibilidades.

Depois de Albert Camus – para quem o verdadeiro problema filosófico era o do suicídio – e de Cioran – para quem “o pessimista deve inventar cada dia novas razões de existir: é uma vítima do ‘sentido’ da vida”, o que resta aos que cansaram de brincar de “associações” de artistas e de escritores, e estão comprometidos com uma discussão mais séria sobre os caminhos da arte hoje? Como enfrentar o absurdo das coisas se, mesmo para muitos artistas, a realidade parece ainda ter sentido?

Será que ainda sinto o absurdo de Camus? Ele existe, vivo, me fere ou se transformou em matéria de revistas, comentários para leitores?

O absurdo instaurou-se definitivamente no mundo ou já é mais um mero encanto intelectual, uma matéria para a memória e a escritura?

A ausência de sentido das coisas ou o seu hipersentido negativo me consome os dias. Camus, Cortázar, Clarice Lispector me impelem à escritura. Mas, já numa outra tarde, perco-me entre deslocamentos, descontinuidades.

Como escritor, vale a pena gravar impressões da viagem cotidiana? (Mas para onde?) Vale armazenar texturas?

Depois, o impulso me coordena, o gravar das palavras numa superfície, a quebra, o silêncio que não sei se vai falar, se partirá.

Há um ponto onde se cruzam essa angústia tênue e diária, quase biográfica (esse “quase” já é literário), e o sair de si que me parecia ser o exercício literário. Me aproximo mais desse ponto, o cruzamento me exercita o texto e a vida. (Orson Welles não disse que “o maior perigo de um artista é encontrar-se numa posição confortável: é seu dever encontrar-se sempre no ponto máximo de desconforto, procurar esse ponto”? E Kafka não escreveu que “a partir de certo ponto, não há mais qualquer possibilidade de retorno. É exatamente esse o ponto que devemos alcançar”?)

No fim das contas, todo texto é autobiográfico. Não quero fugir dos meus outros. São eles que me puxam para o enfrentamento, para o tempo. Imiscuir-me nele, conviver com ele, é o meu desejo.

O cotidiano me devora com suas tarefas sem sentido ou com o sentido que penso atribuir a elas. Não é esse o exercício que procuro. A escritura, no entanto, só me envolve a intervalos, pedacinhos de tempo, como intrusos. Meu tempo é amarrar o tempo; meu tempo é enganá-lo, seduzi-lo ao ócio, subverter-me. Eu sinto que minhas coisas querem o cruzamento, um passo perigoso. Eu quero o tempo do destempo, caminhada, vinho, escritura. Preciso recuar da idéia de trabalho, como já recuei dos ismos, dos disfarces. Minha escritura deve me possuir sobre os escombros das coisas materiais e do futuro. Cada texto, nessas circunstâncias, é uma afirmação de possibilidade, e só dela.

Agora, sei que o absurdo é que restem folhas em branco, gestos não realizados: o não arriscar-se. Posso escrever ao Senegal, ao Canadá, à Índia. Devo criar-me, instaurar-me em minha vida.

Preciso construir a tela a que assisto. Não há tempo nem passos perdidos: há o vazio. É ele que preenche, é o surto de possíveis dias, de imagens falsas, de palavras-fantasmas.


Ter idéias “originais”

Nietzsche escreveu em algum lugar que, às vezes, deveríamos parar de ler por um tempo para fecundar idéias próprias. Soube que essa idéia é de Schopenhauer... A ironia aponta, por si mesma, para o ideal de originalidade de Nietzsche e de muitos autores modernos. Borges acabou destruindo as últimas ruínas dessa ilusão. Outra ingenuidade paralela, a da coerência entre autor e obra, é desmentida sempre, em primeiro lugar, pelo comportamento daqueles que a exigem.

Tomemos essa frase de Borges: “Mi relato será fiel a la realidade o, en todo caso, a mi recuerdo personal de la realidad, lo cual es lo mismo”. Posso pensar que, se a lembrança equivale à leitura, todo ensaio sobre um texto ou um tema é uma invenção, ou seja: intenção, desejo. Se respeito as sucessivas leituras do mesmo texto ou tema, corro o risco de não ler com “meus” olhos. Que importa se essa frase de Borges foi pensada – ou lida – de outra maneira? Recorto esse grupo de palavras, crio minhas relações, recordo. A despeito de Sartre – e Carpentier –, posso afirmar: o contexto sou eu.

No mesmo texto, Borges escreve: “Quiero narrar mi encuentro con Ulrica [...] en la ciudad de York”. Quiero narrar: eis a liberdade do autor, como também a do ensaísta, que pode escrever: quero ler assim. Todo texto ou assunto é infinito: não há porque esperar um encontro entre dois ensaios. Cada um escolhe um caminho.

Digamos, por fim, que a coerência não deve estar no autor, mas no texto sobre essa autor: é ele que deve estabelecer leituras “coerentes”, embora não verdadeiras.

Como escreveu Sebastião Uchoa Leite:

Não é possível pensar
a verdade
exceto como veneno

A afirmação de Nietzsche mostra que qualquer pensamento “original” só existe como pilhagem.


O que diz a palavra

A palavra só pode ser muda, porque o abismo entre ela e qualquer coisa, essa fenda inesgotável, é presença sempre: mas não só isso, não só há uma desconfiança explícita da palavra em relação a ela mesma: há um muro, um obstáculo da palavra – não só literária, mas social – entre o querer falar e o desejo inscrito nessa voz muda, nessa palavra gaga, nessa frase não só incompleta, mas que não nasce. É dessa repressão primeira, original, que surge, de certa forma, a linguagem, de maneira que a literatura não cansa nunca de insistir num fracasso que é o avesso da moeda da desistência: o falar sobre sua condição de mudez, o insinuar – a erótica fenda de que fala Roland Barthes – uma presença sutil que tange o desejo, mas é sempre fantasma fugaz: o objeto que escapa, o projeto que não se realiza, a sedução que não acontece: se a sociedade é a marca mesma dessa repressão, a literatura é seu elemento incansável, intrínseco: uma utopia da sedução, na qual todas as relações sociais, todas as relações morais correm o risco – se essa literatura é instigante – de, levando-a a sério, perder a segurança.


Modernidade e opacidade

Houve um tempo – talvez modernista – em que se enfrentava a transformação das coisas do mundo como uma imagem nebulosa, mas atraente. Já sei que a modernidade significa isso: uma mescla de assombro e fascínio – mas tudo é assombro e fascínio. A modernidade da percepção daquela imagem são a desconfiança e a exuberância: a manifestação da vanguarda é espetacular, embora crítica. O que resta, hoje, daquele olhar entusiasmado? Uma opacidade, consciência amarga – parece que essa rua, a pedra, a garrafa, carros e paredes, árvores, pessoas não transitam, vagam. Algo assim como o olhar oblíquo de Baudelaire, mas sem a intensidade da voz, sem exclamações – o verso contemporâneo não exclama, quase não pergunta, ele flutua sem pontuação, à deriva. E se refaz a cada círculo, alinhavando ausências, cacos da memória. Palavras como signos vazios, reminiscências úmidas, que se dispõem em cores vivas como objetos lúdicos: sua composição é sua “autenticidade”. Na era contemporânea, o branco e o silêncio – de uma cenografia atormentada, mas quieta, da modernidade – tornam-se massas cromáticas que buscam envolver o leitor, sacudi-lo e, antes de tudo, seduzi-lo. A palavra atual é erótica antes de ser destruidora: seu ataque aos sistemas repressores se dá pela presença assídua do desejo: palavra saboreada. É assim que ela constrói: descolada da história, se insere nela. Pela denúncia dos buracos negros do desejo e da experiência, pela presença insistente do processo esmo da criação: palavra contra silêncio.


Escritura “democrática”

O que é uma escritura “democrática”? O texto para a maioria só pode ser uma página em branco: escritor não é alfabetizador, mas tem suas ilusões: uma escritura “mais acessível” às “massas”: amorfo idealizado, o objeto dos textos pretensiosos, o leitor ideal (e massivo). O escritor ainda acredita na inserção social da literatura: uma presença reta e abrangente, luminosa, coerente. O texto – têxtil – se desfaz a cada hora: ausência oblíqua, fugaz, descontrolada: tamanhas e tantas as leituras. O texto não só não chega à maioria: é antimaioria. Sua busca é peculiar: perseguidor de individualidades, de presenças fantasmas, de sentidos possíveis (impossíveis). Todo texto é, por essência, antidemocrático: a escritura é – como Lênin – contra a democracia: mas se Lênin buscava a ausência de minorias, a literatura exige a disputa de vozes: e já se sabe vencida: marginal, elitista, ela é uma categoria em declínio, mas que luta contra o silêncio: o imposto pelo poder, o querido pelas maiorias.


Experiência e ficção

Pascal escreveu: “só acredito nas testemunhas que morreram na batalha”. Ou seja: desautoriza toda ficção – no limite, toda cultura. Benjamin nos conta que os combatentes da I Guerra Mundial “tinham voltado silenciosos do campo de batalha”, “mais pobres em experiências comunicáveis”. Nesse caso, a ficção foi quem criou para nós uma imagem da guerra – livros, filmes. Que batalha se trava hoje senão a das imagens possíveis, da televisão, do jornal, do cinema ou da literatura? Na “barbárie” da falta de experiências, o simulacro delas é a cultura. Diz Lezama Lima: “[...] el hecho americano, cuyo destino está más hecho de ausencias posibles que de presencias imposibles. La tradición de las ausencias posibles ha sido la gran tradición americana [...]”. Preencher essas ausências ou criá-las: a ficção não se contenta com a falta de realidade do mundo: inventa o desconhecido que, para Lezama, “es casi nuestra única tradición”.

Pascal escreveu: “Como a verdadeira natureza se perdeu, tudo pode ser natureza.” Só acredito nos que inventam campos de batalha.


O mercado da arte

Diante do mercado de arte, o artista plástico aceita sua condição de produtor para o gosto dos ricos. Aproveita-se da exigência de exclusividade da posse da obra para cobrar caro pelo seu trabalho: é uma das formas de prostituição. Para mim, o artista mais valioso é aquele que se desvaloriza diante do mercado.

Por outro lado, o artista plástico, se quer viver do seu trabalho, cede à tentação de cobrar caro pela sua obra. Já que a arte não vai ser vendida mesmo para as pessoas mais interessantes, então ele usa o dinheiro dos ricos para poder continuar trabalhando. Isso significa que, de alguma maneira, o mecenato condiciona a produção artística.

Para o escritor, essa situação é aparentemente mais simples. Se escrevo, necessito apenas caneta e papel, e não preciso de tanto tempo de trabalho nem de materiais caros – como nas artes plásticas – para produzir. Mas na hora da circulação do texto, é óbvio que, se o editor não acreditar que ele seja vendável, não vai haver publicação. De todos modos, creio que, como os ricos não lêem, o mercado de alguns textos pode estar determinado por leitores mais interessantes. Daí que se publique a obra de escritores como Clarice Lispector, Cortázar, Cioran, Beckett.


O fracasso das teorias da arte e da literatura

Há muito tempo, já não se pode falar de “teoria da arte ou da literatura”, apenas de teorias; ou melhor, se a teoria servia como sistematização de princípios, hoje não se pode mais falar nem de teorias. A “teoria” e a “estética” faziam parte de uma época em que o artista era membro de uma sociedade. Mas hoje, quando o artista ou o escritor está fora de qualquer grupo, a teoria já não serve para nada. Já não há a crença no Bem, na Verdade ou na Beleza. Embora se possa ter, ainda, uma experiência “estética”, ela será única, com diferentes características dependendo do sujeito envolvido nela. Além do mais, a idéia de determinar uma estética (“vanguarda”) caiu no ridículo. No máximo, posso falar na minha experiência em textos, pinturas, músicas, obras de teatro, fotos... Exatamente pelo distanciamento cada vez maior entre o artista e a sociedade, pelo isolamento do escritor e pela atomização do discurso em torno da arte e da literatura, os critérios “estéticos” passaram a ser algo pessoal. O escritor, sendo agora atópico, isto é, não pertencendo a nenhum lugar, não faz parte de nenhum grande grupo estético, filosófico ou o que quer que seja. A literatura, para mim, já não significa um discurso dirigido para os “leitores” – pois esse enorme grupo fictício não tem nada a ver comigo. Também não tem uma “função” ou “missão” – quem não compartilha nada tampouco tem algo a denunciar ou a mostrar. Nesse não-lugar, o escritor isolado exercita a sua solidão no gesto da escritura, e o leitor que me interessa é outro escritor, é alguém que também está nessa zona de desconforto, de sensação de risco. Procuro ler o que tem a ver com essa sensação de abismo diante dos discursos, das idéias, das hipocrisias circulantes. Os escritores e artistas best-sellers não me dizem nada, formam outros grupos interessados na fama, no mercado, na glória, no público.... Nem entre os artistas e escritores há consenso, pois são diversas as noções do que é arte ou literatura. A rigor, dadas as acepções correntes ou predominantes sobre essas duas categorias, não tenho nada a ver com a figura do “escritor”, mas sim com os escritores que considero fora do circuito, fora dos sistemas, que debatem a solidão da palavra em meio à saturação dos discursos. Ou seja: dizer “escritor” é não dizer nada. Dizer “poeta”, menos ainda. Dizer que Clarice Lispector era “romancista” é bobagem. Ou que Cioran era “filósofo”. Da mesma maneira, dentro da palavra “arte”, cabe qualquer coisa! Qualquer um faz um desenhozinho ou suja uma tela com tinta, e já temos “arte”! O que há, sim, é uma mediocridade geral disfarçada de arte, ou então tudo que é decorativo, bonito e artesanal virou arte. Nesse caso, não tenho nada a ver com a arte. Me interessam, sim, aqueles que, com uma linguagem plástica, debatem e exploram a experiência do risco, da marginalidade, do discurso antiverdade (ou o antidiscurso) e anti-hipocrisia. Me interessa o que explora a falsidade dos discursos e das identidades, o que ri dos projetos e ironiza com o futuro, o progresso e a bondade humana. Em suma: o que me atrai é uma literatura e uma arte radicais, ou seja, que arrancam as coisas com raiz e tudo para expor a mediocridade em que estamos metidos. Não é que esse gesto tenha que ser necessariamente “anti-estético”. Ele até pode conter algo de “beleza”, desde que seja a beleza de um grito contra a parede.


A falácia de certo cinema e de certa arte

Num meio cultural pobre, no qual a maioria dos artistas e escritores está bem adequada ao mundo, um produto cultural medíocre pode passar por uma “obra-de-arte”, principalmente quando a “ideologia” de todos for a mesma. Quando todos acreditam no futuro ou na arte “para o povo”, ou simplesmente defendem que a arte tenha como finalidade “conscientizar”, mesmo algo vindo do mais descarado oportunismo é de agrado entre gente “de esquerda”. Agora, andam de moda os filmes e romances “históricos” ou que tratam da “realidade”. Faz-se um filme dizendo o que todo mundo já sabe, e todos falam: “Ah! Que filme sério.” Como crêem no “iluminismo” da educação, apostam no já-visto, no mesmo – assim como a TV investir no mesmo, e os best-sellers, e os filmes comerciais. (Não é ironia que um campeão de bilheterias como Spielberg tenha feito um filme sobre o nazismo – tudo o que já se sabe vira produto para as massas.) Essa espécie de manipulação é pior quando se disfarça de “crítica”,

“de esquerda”, etc. Por atingir o público e ser “politicamente correta”, agrada a todos. Só os artistas verdadeiros escapam dessa mistificação populista e afirmam a marginalidade de um antidiscurso, de uma postura que não acredita no social. A arte mais crítica é aquela que discute o outro lado, não o mesmo, sendo essa sua condição de marginal, de anti-social. A verdadeira arte não se vende a populismos de esquerda – e muito menos a oportunismos de direita disfarçados e apropriadores de discursos “críticos”. O artista que explora um assunto político-social como meio de ganhar notoriedade e público é um impostor de plantão. A arte crítica está muito além disso, pois recusa a mediocridade da unanimidade. E o artista sério acredita, com Tarkovski, que: “É óbvio que a arte não ensina nada a ninguém, pois, em quatro mil anos de arte, a humanidade não aprendeu absolutamente nada”. Quem acha que isso é um beco sem saída, acertou: só acredita em saídas quem subscreve a política, o populismo da ação e do discurso. A verdadeira arte aponta sempre para o abismo – do sentido da história e da própria arte.


A fala do corpo

Há coisas que só encontro numa excursão ao mato, numa música, no olhar de um pássaro ou, um pouco menos, na escritura. Elas não têm uma consistência, não se explicam, são virtuais em sua complexidade misteriosa. Elas também podem surgir com uma mulher. Mas, ao contrário da melodia, da montanha, dos olhos do gambá, uma mulher, como a escritura, tem voz, detém significados cristalizados pela experiência do mundo. Uma mulher que me abalasse tanto quanto um encontro com um felino ou uma composição de Chopin teria que ser muda ou apenas esboçar uma fala do corpo que ganhasse a amplitude de tudo e transcendesse o sentido, fosse mais que o sentido, significasse além de qualquer discurso ou fala, mas, ao mesmo tempo, significasse o que não posso determinar. Se essa experiência é “estética”, não tem nada a ver com a beleza ou com a arte, muito menos com a religião. Essa experiência do corpo, fora dos limites do cotidiano, exacerba uma curiosidade e uma paixão: a do fotógrafo, do compositor, do pintor, do escritor, do alpinista. Portanto, é uma paixão de artista – mas sem relação alguma com a “arte”. É sem definição, e por isso os artistas podem sentir, “entender” com o corpo, mas não só os artistas, também alpinistas, aventureiros e pessoas de qualquer espécie, sensíveis a essa “fala” muda do corpo.


Cena 11 e a violência-arte

Não acredito numa arte que, para falar de violência, seja violenta; isso seria estar colada ao “real” (infelizmente, é o caso de muitos livros e filmes brasileiros). Não que a arte deva ser “agradável” ou “digerível”. Mas, justamente porque a arte não é o “real”, é mais do que ele. Por isso, desconfiei do título “Violência” do trabalho do grupo de dança Cena 11. Mas era o primeiro espetáculo que eu via dessa companhia. Há violência na coreografia, mas uma violência surpreendente. Há referência a videogames (de que não gosto), mas a estética trabalhada pelo Cena 11 é instigante. Às vezes, há um apelo meio pop, meio televisivo, mas o trabalho, ultrapassando todas essas referências, compôs uma dança provocadora, radical, desconfiada com relação à cultura contemporânea e ao “conforto” de um sentido, de uma moda ou de uma resposta. O esforço dos dançarinos marca o desgaste do corpo no trabalho de dar feição à indignação, à recusa da atualidade massacrante. Sem propor uma leitura fácil e superficial desses nossos dias sombrios, o Cena 11 investe no risco da incompreensão para atacar o tédio da unanimidade e da mesmice cultural. Citando Artaud, o grupo remete a uma ação da “crueldade” como queria o artista francês, sem nada de “cruel”, mas sim de contundência, de abalo corporal, de comoção da consciência. O espetáculo “Violência” investe, de certa maneira, contra o “sucesso”, apesar de o grupo estar bem cotado na dança brasileira. Numa investigação radical e numa pesquisa por uma linguagem inquieta, começa o risco da impopularidade, contra o nivelamento do sentido. O grupo Cena 11 aceita esse risco sem medo. Para questionar as sensibilidades e as formas de fazer dança, o grupo precisa exatamente disso: a perspectiva de um fracasso. Podemos lembrar aqui um verso de Manoel de Barros: “a força de um artista vem de suas derrotas”. No caso do Cena 11, uma possível “derrota” futura de público parece não lhes importar. Em todo caso, eles já conquistaram sua parcela de público e de crítica apostando justamente em sua liberdade de criar. Na verdade, pode-se pensar, sim, em uma “vitória” de sua maturidade como artistas, como fazedores de um mundo em cena que, abalando o “real”, é muito melhor do que ele.


A arte contemporânea para Jean Baudrillard

Jean Baudrillard é certeiro ao apontar a banalidade da arte contemporânea e todo o mercado que se forma ao redor dela, uma arte que se esqueceu de acabar, de parar de produzir essa enxurrada de objetos supérfluos, inócuos (claro, do ponto de vista da arte). Não é o caso de voltar a uma arte “estética” nem “verdadeira”. OK. Mas tampouco é o caso, como quer Baudrillard, de ver em artistas como Andy Wharol uma inteligência irônica que desmistificaria a arte. Ora, para haver essa desmistificação irônica, Wharol teria que se abster do mercado – é pedir muito para um artista, não é mesmo? A não ser os artistas dos filmes “Todas as manhãs do mundo” (Alain Corneau) e “A bela intrigante” (Jacques Rivette). O que faltou a Wharol foi uma recusa (no que foi muito diferente de Duchamp). Sua ironia, em todo caso, foi perigosamente se aproximando do objeto ironizado – imagens da cultura de massas, imagens kitsch, imagens carregadas de indústria cultural. A ironia na arte não deveria abandonar para sempre uma sedução “estética” e “verdadeira”; o próprio Baudrillard admite essa sedução do olhar. Com Barthes, podemos pensar numa arte que seja erótica, por estar num intervalo, entre o estético e o não estético, entre a idéia e a não-idéia, entre a ironia desmistificadora e a sedução de um mistério, entre o vazio do sem-lugar utópico e a possibilidade de algum lugar – para a idéia, para a arte, longe da banalidade atual.


Poesia com palavras

Já que a poesia se faz com palavras e idéias (ora, é óbvio), o que falta na maior parte da literatura contemporânea é exatamente essa imbricação entre palavra e idéia. Em certa poesia estrangeira do século XX, chego a ter a sensação de que há problemas nas traduções, de que alguma coisa interrompeu a correspondência necessária entre “conteúdo” e “forma”. A idéia “vanguardista” da primazia da forma é uma boa desculpa para escrever textos sem lastro de idéias, gratuitos, banais. A aprovação de uma ideologia ou, em todo caso, de idéias “politicamente corretas”, no outro extremo, leva a qualificar como bom um texto pobre e igualmente banal. Séculos de literatura, e o problema permanece: o bom escritor não se forma na academia nem na leitura da tradição. Ele só se forma na escrita – incontrolável, indefinível, fora de “grandes fórmulas” ou de “idéias geniais”. O escritor que vale a pena ler se forma em sua experiência: seu diário não escrito.


Deleuze e Guattari: arte-pensamento

Quando Gilles Deleuze e Félix Guattari escrevem que a arte, a Filosofia e a ciência são pensamento, é preciso acrescentar que a arte é pensamento sem a intenção do poder, dos jogos do poder (em relação à ciência e à Filosofia acadêmicas, por exemplo). Também é preciso destacar que a arte interessante, instigante, radical é aquela que desconfia dos sistemas e dos conceitos bem traçados (a Filosofia), desconfia mesmo do que é considerado “arte”. A arte tem pouco “poder”, porque a leitura de suas criações é, como disse Theodor Adorno, um “enigma”. Nesse sentido, a arte sempre está à margem da Filosofia. Ela não é apenas (como a Filosofia e a ciência) um modo de ordenar o caos: é um modo de acusá-lo.

Se a arte é uma necessidade para quem a faz, é porque é uma atividade do corpo. Esse corpo, essa esfera criadora, é irredutível à teoria ou ao comentário, é só apreensível numa zona também corporal, necessariamente uma apreensão parcial – não porque “falta algo” a ser compreendido ou sentido, mas porque essa apreensão é infinita.

A pretensão de um discurso sobre a arte, portanto, é uma estratégia de apropriar-se dela como uma linguagem significante e de outro tipo. Só um corpo, em sua atividade intelectual e sensível, pode se aproximar de uma obra de arte. O que sobra, então, para a Filosofia da Arte? Sobra um discurso estratégico da delimitação ou a criação de um objeto sobre o qual os filósofos possam se debruçar para dizer como “queriam que fosse a arte”. É por isso que, nesse nível do discurso, os filósofos tradicionalmente falam de outros filósofos, não dos artistas e escritores. Para dialogar com um artista ou escritor, o filósofo deve se arriscar a uma escritura artística, mas isso implica uma fugacidade do objeto, um descontrole que os filósofos não têm coragem de assumir. A não ser um filósofo que escreva a partir da arte e tente uma incursão nesse território fugidio. É o caso de Cioran, que abandonou a Filosofia. Também poderia ser o caso de Roland Barthes, mas Barthes não foi até o fim, ele tinha uma profissão, um lugar nos meios acadêmicos, uma atividade com demasiado prestígio como para que ele tomasse a decisão de abandoná-la. Mas Barthes trapaceia a academia, assim como a escrita, segundo ele, trapaceia a língua. O melhor filósofo – como o melhor crítico – é aquele que deixa de ser.


Ler um livro

Ler um livro não é saber ou incorporar algo, mas esquecer. O tempo em que lemos, poderíamos destinar a outras ações. Se não o fazemos, é porque não temos outra coisa a fazer (temos a solidão, as horas, o ócio), ou sim, mas são coisas tão inócuas, que preferimos passar horas sentados dentro de casa com um livro na mão. Isso é viver? A leitura é uma experiência? Que responda Borges, ávido por bibliotecas... Essa experiência de leitura é um sonho: com uma taça de vinho ao meu lado, um charuto, no silêncio da noite, todos esses personagens – os autores, as palavras, as reflexões, as emoções que os livros me proporcionam, os pensamentos sobre a minha própria vida –, tudo isso faz parte de um sonho articulado em torno de uma carência e um desejo: que o instante concentre em si uma riqueza vital que a própria vida “fora” da leitura não me permite. Como sempre penso, a arte (a literatura, neste caso) é um encontro virtual de solidões criadoras. E nesse encontro, o momento preciso em que o que alguém escreveu é lido por mim, há a verdadeira comunicação, aquele que esquece a “vida real”, o cotidiano insosso, e eleva ao grau de nossa falta o alimento da criação artística, que é a verdadeira vida que quero, que me preenche os dias e vai construindo essa utopia do corpo: imaginar que, em algum momento, quem escreveu esse livro pode ser um ser humano real...


O embuste da democracia

O que se chama de “democracia”, no Brasil (mas isso pode ser estendido ao mundo), é na verdade a forma historicamente mais eficaz de exploração, que já tem alguns séculos de “treinamento”, de experiência. Um bando de poderosos de todos os matizes (todos os partidos), ricos ou pagos pelos ricos, se elegem com campanhas milionárias para impor sua imagem na mídia. O povo vota em quem é famoso, não em alguma “proposta política”, coisa que já não existe, pois nenhum desses poderosos possui alguma proposta, a não ser a de acumular poder. Nem o povo quer alguma “proposta”, ele simplesmente adora quem é rico e famoso, e pode conseguir poder – pois as pessoas, na realidade, votam em quem invejam. No fundo, elas têm enorme admiração pelos poderosos, a artimanhas e os descalabros que eles conseguem realizar. As massas gostariam de estar lá, no lugar dos poderosos, ou seja: lugar de riquezas, fama, tramóias e poder impunes, lá onde esse esmalte de “decência”, “honestidade” e de “bondade”, que séculos e séculos de cristianismo e catolicismo venderam (também, é óbvio, como estratégia de marketing e poder), hipocritamente – de comerciantes hipócritas a fregueses hipócritas –, não precisa mais ter medo de realizar, sob essa máscara, sua verdadeira natureza: exercer o poder sobre os outros. Achar que algum poderoso desses, rico, pago pelos ricos ou aspirante a conquistar um lugar entre os ricos (a “oposição”), possa ser um “representante” do povo no sentido de melhorar as condições de vida é a mais asquerosa das mentiras. Ele representa o povo, sim, mas no que este tem de pior, que é a sede de poder. Na verdade, ninguém representa ninguém, hoje, no Brasil. Qualquer idéia de “democracia representativa” implicaria, necessariamente, que não existisse um presidente da República – que é o máximo do personalismo, da idolatria, do culto ao Rei e ao Príncipe, ao Pai, enfim, o que mostra a concentração de poder nas mãos de um tirano disfarçado de democrata. Qualquer noção de “representatividade” envolveria um governo compartilhado por diversas representações da sociedade civil, e não apenas dos ricos (sobretudo dos bancos e do capital estrangeiro). A obrigatoriedade de votar, no Brasil, faz parte desse mecanismo avassalador de impor às pessoas a “participação” nessa engrenagem exploradora: eleger os poderosos para sustentarem o poder vigente. Trata-se de uma tirania do voto. O direito ao voto nulo foi abolido, nem as instituições responsáveis pelas eleições falam nele, porque elas também representam o poder. A mentira chega ao cúmulo de afirmar que o voto é um “direito” do cidadão, quando, na verdade, “ninguém é cidadão”, e o que faz um poderoso vencer uma eleição não é o “voto popular”, mas a estratégia bem paga de marketing e campanha eleitoral na mídia, pega pelos ricos e para os ricos. Portanto, “democracia”, hoje, é sinônimo de dominação, enganação e exploração. Ou seja, exatamente igual à Grécia Antiga, onde “democracia” significava poder de alguns, as mulheres não participavam, e havia escravidão. Isso foi o que o Ocidente, sobretudo a Europa, conseguiu fazer nos últimos séculos com a política: transformá-la no modo mais eficiente de controlar uma massa de milhões e milhões de súditos.


O medo de olhar para si mesmo

A coisa mais difícil para alguém é olhar para si mesmo. Durante toda a vida, as pessoas se esquivam de si para se refugiarem no “mundo”, na “vida”. Ninguém quer se conhecer, na verdade, pois isso implicaria analisar-se, refletir sobre seu comportamento, seus hábitos e, o que é mais temeroso, sua moral. Para evitar se conhecerem a fundo e, portanto, se depararem com as misérias de que são formados, todos abraçam o que lhes é exterior e preenchem o tempo tão completamente com seus afazeres, que é impossível olharem para dentro de seus corpos. Assim, as pessoas têm filhos, empregos de oito horas por dia, mil atividades e compromissos que, na realidade, não têm a menor importância e não servem para nada, a não ser para conquistar certos “valores” e “bens” que a cultura dominante, massificada e massificadora, as fazem engolir sem discutir, e assim levam sua vidinha pequeno-burguesa e vegetativa. Não conseguem ficar a sós, não têm tempo para si mesmas – nem para olhar um pássaro, escutar uma música, ver o mar – e nunca terão: só estarão verdadeiramente a sós quando estiverem mortas. Antes disso, a solidão é um mal ameaçador, pois faria com que elas se olhassem num espelho complexo e revelador. Assim como a maioria das pessoas, também os poderosos não têm como se enxergarem: possuem o mesmo pânico de se compreenderem (imaginem o que é compreender cabalmente que se é um “dono do poder”) e jogam toda a sua vida no afã da ação, do projeto, da conquista, da vantagem. Porque ambos, a massa de gente e os donos do poder, compartilham a mesma visão de mundo. Do outro lado, numa minoria que tem a coragem de se analisar, pensar sobre si e contra a mediocridade geral, são os artistas e os pensadores os que causam um curto-circuito nessa vida de morte, e nessa cultura homogênea e massificada. Eles dispõem de tempo, de ócio para si, para olhar o mundo com desconfiança e crítica. Seu uso do tempo não obedece ao relógio geral nem ao calendário cristão. Mas, longe do tempo cotidiano que marca o mundo entregue à sua própria destruição, são eles, os artistas e os pensadores, os que estão mais dentro do tempo, mais imersos em sua profundidade reflexiva, mais aptos a denunciarem, com a coragem de quem pode se olhar no espelho, a quimera de nossa vida atual.


Civilização é barbárie

Não há a menor diferença entre a degeneração social atual e o cenário de horror e decadência de várias épocas da história. Num certo sentido – mas esse sentido é fundamental –, não houve degeneração nenhuma, pois as comunidades humanas sempre se pautaram pela violência, a intolerância e a má-fé. Jamais algum grupo humano dito “civilizado”, desde os primeiros textos que conhecemos, que datam de mais de três mil anos, até hoje, se orientou pela paz, pelo respeito à diferença e pela honestidade. O que estamos vivendo neste século XXI é a repetição, já desgastada de tão velha, do espírito que já animava as primeiras “civilizações” da região dos rios Tigre e Eufrates. Por isso, é demasiada pretensão alguém falar hoje em “progresso”, “melhoria”, “ética” ou qualquer outra ficção – que, aliás, são igualmente antigas, tanto quanto o descalabro da conduta humana. Os três pilares ideológicos mais importantes que sustentam as mentalidades ocidentais contemporâneas são religiões milenares: o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. Essas três tradições sempre se basearam no segregacionismo, na violência contra o diferente, no conservadorismo mais pesado, na repressão, no estímulo à guerra. Isso, desde seu nascimento. O que se chama de “civilização ocidental” nada mais é do que o acúmulo de “barbárie” sobre “barbárie”, termo, aliás, inadequado, pois nunca houve a menor diferença entre os chamados “bárbaros” e os chamados “civilizados”.