Nahuel (fragmentos)

Vejo o dia em preto e branco, granulado, na tessitura do acaso. Vejo o que não vejo: dentro dos cinzas, dos brancos, do que ainda não tem cor na íris. Meu dia é pálido. Tenho todo o tempo a perder, tenho o que não possuo. Minha perda se define é à meia-luz. O que escrevo também é sem cor, com o papel granulado pelo gesto afoito das nuvens, na urgência da chuva. O que escrevo é sombra da sombra na lua por detrás dos bambus inclinados, uma hora sem minutos. No escuro é onde enxergo melhor: onde a palavra não se desenha, apenas se evola. E estas páginas têm a forma do gato saltando.




Com a mão embaixo, afastado de todo frio, na hora trêmula. Com o afago liso do instante, na pele úmida que exala uma pergunta, aquela. Quando algo se agarra com a ansiedade de um lobo, quando a mão se concentra no que pulsa. O tempo é para se gastar no embate. Com as mãos tensas pelo vício, procuro um objeto. Dentro do dia impune, na passagem da fome. Então, o corpo erguido pelo gesto se transborda, no limite do grito, quando a voz se delimita. E quando como o branco da sílaba e mastigo o inacessível, me deparo com a mudez dos dedos. O poeta é aquele que detona a fala.




Os dias estalam de frios. A casca de tudo trinca no intervalo de um passo. O tempo só segue para os crentes. Nas noites imóveis, nas ruas desprovidas de sabor, engulo sílabas. E passo a fome adiante como uma página em chamas. O trabalho aprisiona. Então, teço redes oblíquas que se desatam, despescam diante do insondável. Eu me percebo é na solidão do lápis. No que arrasta signos de nada por areias úmidas. E encontro a trégua de uma iluminura mínima na letra fugaz como uma estrela. O poeta é aquele que planta o desatino.