Entrevista de Renato Tapado ao site www.escritoresdosul.com.br

Entrevista de Renato Tapado ao site www.escritoresdosul.com.br.

Quando você veio para Santa Catarina? Conte um pouco sobre a sua vida.
Cheguei a Florianópolis dia 29 de dezembro de 1973, com 11 anos incompletos, e comecei a conhecer peixes e pássaros. O primeiro lugar onde morei, por três meses, foi uma casa de madeira à beira da Lagoa da Conceição. A natureza, aos poucos, foi tomando conta de mim, eu que vinha de um edifício numa avenida e jogava futebol num pátio de pedra. E os livros: eu os devorava, pegando emprestado da biblioteca do Colégio de Aplicação. Não lia nada do que a professora de Português pedia, mas lia um montão de coisas "extras", como Sidney Sheldon, Agatha Christie e O exorcista, por exemplo. Meu pai comprava livrinhos de espionagem nas bancas de jornais, e depois eu lia tudo. Chegamos a ter caixas de livrinhos... Também andava de bicicleta e às vezes ia à praia (Joaquina, Sambaqui) com uma pequena Monareta (bici da marca Monark pequena da época). Aos 15 anos, comecei a tocar bateria, violão e flauta, e cheguei a me apresentar como músico em algumas ocasiões. Larguei, porque era muito tímido. Abracei a literatura por timidez, e até hoje me arrependo profundamente de não ter sido músico.

Como você se define?
Honesto demais, ético demais, solitário, tímido, às vezes tenho a sensação de que não faço parte deste planeta.

Quantos livros publicados? Qual o seu preferido e por quê?
Em papel, poucas coisas publicadas, um livro pela Editora da UFSC, outro pequeno, de pouca tiragem, pela Ed. Letras Contemporâneas (que a editora perdeu), e algumas coisas por conta própria. Todos os meus textos estão no meu site (www.renatotapado.com).

Você tem rotina para escrever?
Não, escrevo pouco e passo muito tempo sem escrever.

Quais os autores do sul que você mais admira?
João Gilberto Noll.

Quais as suas influências literárias?
Adoro Clarice Lispector, Emil Cioran, Rubem Braga, Georges Simenon e Marguerite Duras. Não sei quais são minhas "influências".

Como você começou a escrever?
Parece que eu fazia um "jornalzinho" no edifício onde eu morava, no máximo aos 10 anos de idade, mas não me lembro. No Colégio de Aplicação (na adolescência), sim, fiz um jornal e escrevia boas redações. Em algum momento, comecei a escrever poemas, isso depois de ler Toda poesia, de Ferreira Gullar. Escrever mais sistematicamente, querendo ser um escritor, foi a partir dos 17 ou 18 anos.

Por que você escolheu cursar Letras na faculdade?
Eu cursei dois anos de Administração e dois anos de Economia (na UFSC). Larguei tudo e comecei Letras Português e Espanhol do zero. Pensava que eu devia me atirar num campo que tivesse a ver com a literatura. Foi uma decisão difícil na época, mas acertada.

Muitos professores dizem que o curso de Letras intimida os alunos que desejam ser escritores, que se tornam mais rígidos e exigentes com a escrita e às vezes até desistem de escrever. Sendo formado em Letras, como você vê esta situação?
Pode ser que a universidade iniba o surgimento de um escritor, mas ele se tornará escritor mesmo assim. Como diz Cioran: "A universidade é o espírito de luto".

O que você vê de mais negativo e positivo nas universidades brasileiras hoje, seja numa faculdade de letras ou qualquer outra?
Não vejo nada de positivo. A universidade é o reino das máfias e da mediocridade. Tudo o que tem a ver com a literatura e a arte passam longe das universidades.

Como foi a experiência de trabalhar como professor numa universidade argentina? Você acredita que a educação portenha é melhor que a brasileira, como muitos falam?
Trabalhei primeiro numa universidade do nordeste argentino, não portenha. Hoje, trabalho em Buenos Aires. A Argentina é um país em franca decadência, com a globalização e o neoliberalismo que destruíam o pouco que restava do que a ditadura não tinha conseguido destruir. No Brasil, a mesma coisa. O que resta é a insistência de alguns artistas, pensadores, escritores... Qual o sentido da vida pra você? Nenhum.

Você acha que pra se tornar um grande escritor é necessário trabalho duro, como um "operário da escrita" ou é uma questão de mero talento?
Para se tornar um "grande escritor", é preciso ser adotado pelo sistema de editoras, mídia e universidades: um mundo mafioso, que não requer qualidades, a não ser talento para flertar com o poder.

Você acha muito difícil a publicação impressa de livros no Brasil?
A publicação é quase impossível, a não ser que você seja jornalista de um grande veículo, parente de um dono de editora ou famoso por qualquer outra razão. Praticamente, o segundo livro mesmo que terei publicado por uma editora será lançado este ano pela Editora da UFSC, como foi meu primeiro livro, há 22 anos. Como é uma editora universitária, não se pauta somente pelo lucro, mas também tem o objetivo de dar a conhecer autores regionais. Fora isso, é muito difícil, no mundo inteiro.

De todas as atividades que você faz ou já fez, inclusive tradutor, professor e escritor, qual você gosta mais ou se sente mais à vontade?
Cada uma tem seu encanto. Também gosto muito de cozinhar e trabalhar de garçom.

Você acompanha política?
O que é isso?

Defina algumas palavras:
Amor - Colete salva-vidas.
Sexo - Tentativa de fugir do mundo.
Liberdade - Ficção.
Prosperidade - Ficção.
Religião - Máquina de fabricar imbecis.
Deus - Nunca ouvi falar.
Inteligência - Faculdade capaz de criar a bomba atômica.
Burrice - Bem comum.
Vida - Algo sem valor.
Morte - Objetivo comum.

Como gostaria de morrer?
Dormindo.

Quais teus sonhos?
Fazer sexo de todas as maneiras possíveis.

Já usou drogas, inclusive bebidas?
Não consumo drogas (Coca-Cola, novelas, futebol pela TV, programas de auditório, best-sellers, Paulo Coelho...).

Gostaria de alguma outra colocação?
Colocação de dinheiro em minha conta bancária.

Gostaria de deixar alguma mensagem?
Não acredito em mensagens.