Entrevista com Renato Tapado para o "Álbum de alquimias. Estudo sobre a criação literária", projeto na internet do escritor espanhol Jorge Mangas Peña.
1. O que te impulsiona a escrever? Quando e por que, e como começaste a escrever?
Me impulsiona a escrever o desacordo com o mundo. Comecei em uma época que já não lembro, antes dos dez anos, e depois, mais conscientemente pensando em escrever "literatura", com 17 ou 18 anos. Mas já faz muitos anos que, de algum modo, busco me afastar da "literatura".
2. O que queres contar?
Não quero contar, quero afetar. Meu texto não segue a narração tradicional, a que ganha prêmios e é publicada em grandes editoras. Escrevo pouco, mas meus textos são densos, opacos, carregados.
3. Como queres contar? Sempre consegues?
Quero afetar como algo afeta o corpo. Nunca sabemos se conseguimos algo, só o leitor, talvez, perceba em seu corpo uma afecção que transtorne o sentido.
4. Processo criativo: diante do gérmen da idéia de uma história ou um poema, permites que ele cresça e amadureça dentro de ti o tempo que for necessário antes de pô-lo no papel ou o pões desde o primeiro indício e permites que se desenvolva já no exterior e te arraste?
Escrevo num instante, no momento em que o corpo se expressa, sem um antes nem um depois. Quase não reviso o que escrevo, não "corrijo" nada. O que escrevo se elabora no momento em que pego a caneta, mas aí se cristalizam muitos anos de espera, de experiências e de inquietação.
5. Estudo, aprendizagem e aperfeiçoamento de técnicas ou espontaneidade e escritura "de ouvido"?
A escritura pertence ao corpo. A experiência do corpo no roçar com o mundo produz uma "cultura", que, sim, desenha a escritura possível desse corpo. Nenhum estudo produz um escritor, só a vida em sua desgarradura sem volta.
6. Como se pode reconhecer a "paixão" em um texto? Como se pode insuflar paixão a um texto aparentemente "frio ou cerebral"? A paixão é necessária? Onde estão os limites?
Só me interessa a escritura do corpo, embora nem sempre o corpo está apaixonado. Mas a escritura não é cerebral, e sim corporal. A paixão de um texto, a percebemos como um desvio, um tremor no cotidiano, em nossas concepções. Se um texto me deixa como eu já estava antes de lê-lo, não serve.
7. Te obrigas a não contar o que gostarias de contar (autocensura)? Aceitas mordaças externas? Em que circunstâncias a autocensura (ou a censura externa) pode ser necessária? Há quem garanta que, sob restrições, pode dar o melhor de si e que sem elas se dispersa; há quem afirme que as restrições esmagam sua criatividade...
As únicas restrições a um verdadeiro escritor são as que ele não conhece, os limites que sua própria vida lhe impôs, suas vergonhas, seus medos, suas hipocrisias. Para mim, somente vale o escritor que recusa a escritura que lhe encarregam o mercado, as editoras, os jornais e o público.
8. Diriges a obra a um leitor ou o fato de que alguém possa ler o que foi escrito é secundário? Pensas em facilitar o caminho ao leitor ou o leitor deve se adaptar às possíveis dificuldades do texto?
Escrevo por uma necessidade, por não estar adequado ao mundo. Algum leitor lerá esse texto e se identificará com ele ou será afetado por ele. Isso é obra do acaso. A escritura "dirigida" a um leitor predeterminado é uma escritura morta. "Facilitar" em um texto é mentir ao leitor. Nenhum texto de um escritor verdadeiro é fácil, como a vida também não é.
9. Como te defines como autor (estilo, inquietações, horizonte-projetos...)?
Não me defino. Mas tenho a intuição de que minha escritura é produto de uma espera eterna...
10. Diante do bloqueio criativo (durante a construção de uma obra ou antes de começá-la, ou recém-terminada), que soluções adotas?
Não há solução ao problema da escritura. Só resta ao escritor a opção de escrever. Ou calar-se. Acrescento que só um escritor pode decidir se calar, não escrever mais como limite de seu desacordo com o mundo. Essa decisão de parar jamais será tomada por um crítico.
11. Pergunta aberta: inclui aqui, se quiseres, aquilo que desejas comunicar conforme tuas experiências e que não foi dito nas questões anteriores.
"Silêncio, solidão e uma folha em branco. É então quando se produz a grande paixão pela escritura e se manifesta o pensamento poético." (Antonio Gamoneda, poeta espanhol.)