Diário

Outubro/2007 

O ócio é a atividade que mais exige de mim.


Me decepcionei tanto ao ver um filme chinês – que, na verdade, dizia: “olhem como aprendemos a fazer cinema ocidental”. Um cineasta que gosto: Tarkovski, porque não faz algo ocidental, porque não faz “cinema.


Tudo o que construo durante a minha idade não passa de algo à-toa. Está bem: poderia pescar, cozinhar ou escrever, ir ao cinema, tomar um vinho e olhar pela janela tranqüilo, já que a vida não passa mesmo disso. Destituído das crenças que mantêm o mundo na aparência de algum “projeto”, só me resta exercer pequenas atividades sem nenhuma “esperança” nem finalidade. O problema é que sempre estou agarrado a alguma ânsia, essa ruína do consolo. Vivendo num incômodo, não será que, sem saber, busco algum “projeto” impossível, algo que ajude a “passar o tempo”? O problema é que, tendo a certeza de que não há nada a fazer, quero fazer algo. O impasse do verdadeiro artista é seu inconformismo com a ausência de sentido e de finalidade – algo que ele já sabe. Só existe arte porque o artista não consegue esquecer.


Quanto menos eu espero da literatura, mais liberdade tenho para escrever.


O mal-estar no mundo me leva a procurar pessoas que me interessam, quer dizer, que também se sentem sós. Não encontrando ninguém, volto aos textos.


Minha arrogância ao atacar a crença no futuro, na humanidade, na política ou na arte é a conseqüência de uma desilusão: só quem acreditou tanto na possibilidade da liberdade pode sofrer com a constatação de que tudo era uma grande fraude.


Contradição: exatamente por achar a vida um tédio, é que tento me agarrar aos seus mínimos prazeres – e vivo. Os que se acomodam à vida – à sua mediocridade sem prazeres, sem riscos – são levados, arrastados pela vida. (Vantagem do arrastado: ele vai se afogando, mas nada para ele é incômodo).


Com Roland Barthes, procuro ser um escritor atópico: sem lugar, sem pátria, sem “literatura”. Utopia do atópico: ser localizado por alguém.


Encontrar pessoas e perceber falas vazias, o tempo correndo sem que haja uma sedução, um lampejo, uma revelação. Encontrar pessoas pode ser o modo mais rápido de desmascarar a vida.


Não me interessa publicar para tornar público, mas para catar leitores individuais, ocultos, que não formam nenhum consenso.


Uma praia, neblina, uma casa vazia no inverso, o grito de uma gaivota. Toda a minha “literatura” se reduz a isso.


O preço a pagar por conhecer, por saber as pessoas, é o da solidão e de um cansaço vasto, esmagador. Meu fascínio por bichos desde que eu era criança deve se ter elaborado sobre essa desconfiança primordial: a de que a maioria das pessoas desembocam sempre num mal-entendido, num desastre.


Irmão de Diógenes, caminho a esmo, em círculos, no escuro, à espera de um milagre sem santos, sem deus, sem nada.


O que quer dizer um compasso, uma melodia? Está bem que minha recepção é social, histórica, etc. Pois bem: mas o que quer dizer? O que faz com que eu ame determinada música, mas não saiba o que ela significa? (Detalhe: assim também gosto de certos filmes que não entendo, ou pouco entendi na primeira vez, como os de Tarkovski ou Raúl Ruiz). Quero uma escritura assim, entre a música e a dança.


Sofro com a ausência de uma mulher musical.


Janeiro/2007 

Às vezes, parece que a palavra me obriga a pensar e a escrever como quem raciocina. Quando componho uma música, ao contrário, crio sem razão. Talvez em breve eu volte àquela escritura irracional como um modo de fugir da sintaxe do logos, escapar de qualquer compromisso comigo mesmo, instaurar outra vertigem.


Meus pequenos prazeres — comer e beber com os amigos, por exemplo — são pequenas tréguas, intervalos em que a solidão dá um tempo. Terminados os encontros, volto à sensação de vazio inicial que as conversas entre uma bebida e outra não puderam preencher.


A página em branco me seduz como a praia deserta, a pele nua, a estrada vazia. Meu desejo sempre opera, então, por deslocamento: nunca estou em lugar nenhum e quero ir até lá: quem sempre está apaixonado nunca encontra o lugar da falta.


Quando alguém fala da "facilidade" ou "rapidez" do computador como vantagens para escrever, é porque está dentro da idéia de que precisamos fazer tudo mais rápido. Isso significa uma adequação a estes tempos acelerados e superficiais. Para mim, ao contrário, faz falta "perder tempo", quando, na verdade, estamos ganhando outro tempo, e descartando aqueles tempos tecnológicos e a ilusão de que a velocidade serve para alguma coisa.

Além disso, para mim a escritura é algo diretamente ligada ao corpo, não só num sentido "figurado", mas numa relação real. Quando escrevo, me interessa certo tipo de papel e de caneta. Sinto a resistência da folha branca sob o peso do meu gesto, sinto meu corpo dirigindo a escrita. No silêncio, até escuto o roçar da caneta no papel. Essa caligrafia é toda ela um gesto do corpo — inclusive, dependendo de como estou ao escrever, o texto sai diferente: um desenho, um ritmo distinto. É claro que, depois, passo o texto para o computador para imprimi-lo, e o texto impresso já não carrega as marcas visuais do movimento da escritura — mas carregará outras marcas.

Escrever à mão é uma maneira de desligar meu corpo do tempo.


Uma vez, na biblioteca da universidade, uma mulher me viu perto das estantes de literatura e perguntou: "Você sabe qual é o poeta da dúvida?". Eu não sabia e não pude ajudá-la, mas hoje penso: qual é o escritor que não é "da dúvida"? Qual é o que só se baseia em "certezas"? Qual é aquele que "escolhe" um caminho, uma diretriz, um método? Disse Tom Jobim: "O homem que escolhe está confuso".


Quem me garante que, se eu me tornar um escritor mais ou menos "conhecido", vou ter realizado o sonho daquele "diálogo" com alguns leitores? Às vezes, a "fama" de um escritor é apenas a conseqüência de circunstâncias de marketing. No entanto, a vaidade que está por trás do desejo de ser conhecido pode ser uma das causas de continuar escrevendo, pois, se o escritor for realmente sincero consigo mesmo e analisar a condição humana, decide parar de escrever. Rimbaud era o homem que não tinha vaidades.


Tenho a sensação de que qualquer iniciativa é inútil. Já me frustro por antecipação, desacreditando de alguma ação futura que tenha qualquer parentesco com alguma idéia de "aperfeiçoamento", "melhoria", "generosidade" do ser humano. Por isso, só acredito na ação individual ou naquela cujo objetivo não é mais do que ocupar o tempo sem a cínica pretensão de "fazer o bem" ou "construir uma sociedade melhor". No entanto, remanescente que sou da grande enganação da utopia, tudo isso continua a me incomodar.


Para quem já não acredita em nada que seja comum/social, só as pequenas ações valem para passar o tempo. Numa era (quão longa!) de absurdo e estupidez por toda parte, o que me resta é me aferrar aos meus prazeres, que são a gastronomia, a natureza, a escritura, a arte, o sexo, a conversa com algumas pessoas, os bares, a bicicleta, o cinema, a música, o teatro... Às vezes, espero secretamente ser um escritor conhecido para que eu possa dialogar com outros sobre tudo isso. Outras vezes, penso que essa vaidade é mais uma inutilidade — mas com as características de um delírio egocêntrico.


Em muitas ocasiões, escrevo a partir de uma música (sempre com música). O texto, então, não parte de uma idéia, mas de algo entre o som e a palavra.


Me expressaria muito melhor pela música. Escolhi o texto por timidez.


Só escrevo escutando música, pois assim me distraio do ruído do mundo.


Pretexto para escrever: ao escutar a mim mesmo, tenho a ilusão de que existo.


Há ocasiões - como num dia de chuva diante de uma montanha — em que nada está sendo dito, e esse silêncio contém mais do que eu posso escutar.


Atração doméstica: gosto de estar metido dentro de casa porque, vagando para lá e para cá, os objetos, mudos, me devolvem à minha própria solidão.


O que me incomoda não é tanto o trabalho pela sobrevivência, mas a luta por uma subvivência, abaixo do sem-sentido cotidiano, fora dos hábitos sociais, à margem da "vida" como ela é.


Fora de uns poucos autores, músicos, diretores, nada mais me estimula a escrever. No entanto, essa meia dúzia de criadores produz uma obra que não acaba mais, porque se bifurca cada vez que abro uma página ou escuto uma música de novo.


O mais essencial que reconheço em mim se resume a uma espera. Esperar o quê? E nesse "o quê" cabe tudo o que me falta.


Minha paixão por plantas e animais talvez contenha uma inveja essencial: a de não ser, não estar e, sobretudo, não pensar.


Sempre me cativou o mistério do outro, desse que está lá à beira do rio, carregando cebolas, assando o pão no forno fora de casa, dando comida aos cavalos e comendo bem, depois de tanto trabalho. Sempre invejei, de certo modo, esse dormir e no outro dia ter que começar tudo de novo, de maneira a nem ter tempo de pensar ou não ter mais do que um pedaço de terra para conhecer — e levar a vida inteira para isso.


Tomar o café da manhã sem nenhum compromisso depois, com a companhia de alguém incomum, inabitual: um modo de esticar o tempo, de forçá-lo a se curvar diante do diálogo.