Diário de bicicleta (fragmento)

Saí de San Martín de los Andes dia 25, quinta-feira, com frio e às vezes uma chuva fina. A estrada de terra com pedras e, às vezes, areia solta é horrível quando molhada: as rodas não andam direito, as pedras desequilibram a bicicleta, e as subidas cansam o dobro, ainda mais com todo o peso que carrego. Bem, até Villa Traful são quase 100 km, logo terei que dormir em algum lugar à beira de um rio ou lago no meio do caminho. Comecei a pedalar devagar. Para sair do camping, tive que caminhar empurrando a bicicleta morro acima até a estrada — e depois a chuva aumentou. Ou seja: cordilheira (subidas), estrada de terra e pedras, vento, chuva e frio: tudo junto. Para piorar, passei por um trecho que estava sendo asfaltado, e o asfalto ainda estava mole e grudou nos pneus. Que saco! Lá fui eu, debaixo de uma chuva fininha, tirar o excesso de piche das rodas com o auxílio de uma pedra...

Bem, segui adiante, e lá pelas tantas, quando a chuva tinha engrossado, vejo um ciclista parado perto da estrada, embaixo de uma árvore. Me aproximei, e começamos a conversar. Era o seu primeiro dia de viagem; tinha saído de San Martín com um primo, e este, nos primeiros cinco quilômetros, desistiu! Bem, continuamos juntos a viagem até  Pichi Traful (mais um nome indígena), um rio que vai dar no Lago Traful, mais ou menos a 56 km de San Martín. Apesar da chuva, pudemos ver uma paisagem que é realmente impressionante, nesses 800 metros de altitude. Os lagos são fantásticos, especialmente o Falkner, e os bosques, as montanhas nevadas, a cor da água dos rios... Tudo é verdadeiramente deslumbrante. Chegou um momento em que parei a bicicleta no meio da chuva e fiquei admirando um paredão montanhoso com seus bosques. É simplesmente indescritível! Me lembro do poeta japonês Bashô e sua viagem a pé e a cavalo pelo Japão, onde ele parava e escrevia hai-cais inspirados na paisagem. Bem, Bashô que me desculpe mas, eu, diante da Cordilheira dos Andes, fiquei mudo. O que é que eu posso escrever diante do que vi, diante do inenarrável? Só posso ficar calado: não há o que contar ou descrever, só é possível contemplar.