Para Zé Rafael Mamigonian

Estamos em tempo de névoas. Estamos em dias pretos, granulados, predispostos à carga de fuligem das falas e seus ecos. Dias de calado gris e cálida garoa sobre velhas telhas. Falas que esvoaçam ao vento sem matéria ou consistência.

É no vazio que a palavra reverbera como lâmina. É nesse espelho cego que compõe os dias cinzentos que espalho sílabas que têm a fibra de um relâmpago. As imagens são para desfazê-las. Quando a noite estala na passagem de um pássaro. Onde o vôo, quando. E as vozes que ouço como numa tela esvoaçam diante da pedra do tempo.

Nesses dias de agouros negros, incrustados na craca do hábito e do suborno, nessas horas de chumbo e de espera, espreito a imagem de um vagalume ao acaso, um ponto de mínima luz me distraindo das camadas de tédio e tempo neutro. É quando a tela a que assisto se desfaz na iminência de um grito, é quando rasgo o pano para traçar no plano uma vertigem, como aquela no barco à deriva, no limite, disposta a se lançar ao mar escuro sem remorso ou trégua.

Tremo diante do branco, estremeço com a maresia que não cabe na tela, como um vasto mundo em que deliro, fora do quadro e da trilha. Opero é pela desmontagem. Me situo no intervalo da cena, entre um fotograma e outro, na linha do impasse. Meu gesto diário é rasgar o roteiro. Invisto na precisão de um devaneio, na espera de uma cor que não há, o branco dos brancos. E desenho na película das horas meu tempo paralelo em linhas tensas, prontas para o desenlace.

Estamos em tempo de palavras brutas. Então, na calada do dia, em meio à intempérie de pedras, nos sulcos ocultos dos minutos, libero na página a pétala mínima que desorienta, sem alarde, o curso das horas.

Renato Tapado
Dezembro de 2001