Para Vinícius Alves

As marcas que quero te enviar, essas manchas opacas de cor violeta que se dispõem pra mim, oblíquas, como essa névoa que turva o céu, agora, depois da chuva e nessa modorra das três da tarde cinzenta num lugar qualquer do Rio Tavares, úmido, cujas únicas vozes veiculam cacarejos, latidos, e silêncios densos, essas marcas são inscrições no branco da pele, como tinta solúvel em água, que desenham o contorno de uma esfera tênue, seca, o interior do jarro, escuro, onde o barro tece sua consistência porosa e fresca como um filtro. A água que circula por ele, de transparência fugaz, não chega a encher um copo, é a própria sede imersa num tempo ondulado de espumas, como à deriva de si sem bússolas, essa linha que olho daqui, que se perde no esbranquiçado da névoa, e seu recorte pela asa do albatroz, na tarde, identifica uma presença, árdua, que não reconheço: essa coisa, essa mancha, que vinca o ar com seu destino de pluma, ponta-seca, bico-de-pena, fugidia, nas curvas dessas areias dispersas na praia e seu reflexo no curso das horas, esse pó de conchas espalhado pela fuligem do dia, não me traz nenhuma lembrança, nem pressentimento, apenas treme, como folha, esperando, talvez, que a saída da lua por detrás das nuvens ao anoitecer possa cumprir um desígnio desconhecido, o da coruja perdida, o do pássaro cuja rota infinita desconhece, o do molusco preso à geometria do nácar, o da alga que dança com as águas sem sair do lugar, e então o que pode surgir, vencido o tédio do percurso sem data e sem roteiro, dentro da noite projetada que avança, avançará sem trégua, na solidão repleta de vozes mudas que pairam, vacilantes, sobre minha mesa, é essa teia de registros falsos, essa seqüência de pontos que não formam uma reta, essa pintura cujas cores, bem sei, farão, quem sabe, amanhecer amanhã.