Para Rodrigo de Haro

O mês de maio, por sua visibilidade transparente e uma temperatura anunciando o abrigo, pelo sabor pressagiado do vinho e seu acompanhante na textura da delícia ou no posterior aroma do charuto que sabe, me aparece aos poucos como notas, pedaços de papéis escritos numa caixa, folhas que o outono já deitou.

É raro não vislumbrar, nesses dias azuis, a iminência do fogo. O desejo das lenhas, das mãos frias, dos caminhos abertos à passagem e ao diálogo. São noites azeitadas de alho e álibis, cumplicidades nosferáticas, partituras. É quando a imagem da lua constrói sua tessitura de gala. É quando as letras se contemplam no desvio do sentido, nos espelhos da memória falha, na precisão do instante. Mês de rastros.

Então um pequeno cômodo, seu desenho de móveis e de livros, as velas ávidas por tempo e pensamento, pode ser um alvo de alquímicas presenças: Athanor.

O mês não sabe de suas ausências frias, das pétalas de um diário inacabado e vasto. São dias em perfume, dispostos a ceder ao toque do vento, do pincel, da labareda e seu amigo. Mês de estranhas datas, como 6 e 13 (há sempre um 7 oculto nas folhas deste calendário), e de lugares distantes como Paris e Porto Alegre, mês de enigmas.

Meu empenho é nessa brancura do não sabido, das teias, dos cálices vazios: cartas por sair das penas, das horas vazias e das noites de insônia. O mar comparece com seus ruídos eternos. Junho já será das tainhas e das lãs, mas as folhas seguirão buscando respostas, como a gaivota busca seu destino na travessia.