Para Raquel Stolf

Há coisas brancas que me perseguem. Há um intervalo entre as cores do mundo por onde passo e espero: eu vejo o lado claro das coisas pelo avesso. Há uma sílaba tão branca que não chego a pronunciar. Mas canto por dentro, no silêncio de uma espada repousando seu brilho no poço. Me vejo nesse espelho escuro, ao lado de mim, como uma pluma na neve. Dentro dos meus olhos há um lobo. Eu sonho com uma fome branca de tão funda. Me agarro aos dentes de uma carne sem volta, na despedida da febre, na opacidade da taça vazia. Eu alimento tudo que como. Mordo a brancura de uma espera e circulo sem fim, colhendo a pétala translúcida, exposto à relva diáfana da pele, a alva paixão que me devolve a mim. Gozo a textura do acaso e me distraio com o instante. Tento ser e tropeço. Falo um nó. Espio o nada. E dessa liça, da tessitura esgarçada da palavra, extraio um sonho: e me dilato como um balão branco.