Para Raquel Stolf

Penso em você como alguém que não conheço, como alguém que conheço demais. A vida não está na cara, ela é porosa em sua acomodação às águas. Curso de rio em livros, em músicas. Há diálogos que só criam sua verdade quando não se expõem. A verdade não cabe na fala. Então damos a volta, sem retorno, e chegamos ao núcleo do dentro, à esfera em que nos desdobramos, aquela vida que só há na música, no mar, na palavra insubstituível. Só me comunico quando estou só. Esse músico toca só para mim, e abstraio o mundo em volta, porque essa música foi feita para o meu desejo. Não consigo falar o que sou, como um músico. A arte é uma timidez de luxo, mas parte da pobreza. Construo esse luxo de mãos abanando, me despeço de tudo, menos da minha folha em branco. Há falas brancas, também, mas não suportam o mundo. Tudo que mais quero mostrar é silencioso e na sombra. A timidez é uma farpa. Também é um aparato para afastar os discursos ambulantes. Tudo que é dito me irrita. Sofro a consistência das horas em trânsito, orais e escritas. Estremeço diante da palavra pronunciada. Mas tenho o refúgio de textos brancos, falas que não submeto às ruas, verdades que se escondem sob as sílabas que recolho em cestos de papel. E quando encontro textos assim meu coração acende. Só sou na exatidão desse tecido para mim, dessa palavra disfarçada que me é dada, fora do tempo e do espaço, nessas vozes que imagino, já distantes, mas que chegam até aqui, à minha solidão aberta, para eu devorar como primeira necessidade. O diálogo que procuro é noturno. Espreito o pensamento do outro, mesmo morto, porque seu texto reverbera no tempo. Kafka é meu contemporâneo. Converso com Beckett. Escuto Cioran. Ligo pra Clarice. Recebo recados de Guimarães Rosa pela madrugada. Escuto a fala macia de Marguerite Duras e as frases duras de Hemingway. Não conheci nenhum deles e os conheço demais. São minha companhia sem pão. São fantasmas que atravessam minhas horas dispersas. Outros, conheço por seus textos e também pessoalmente, como João Gilberto Noll, que quase não fala, em sua timidez porco-espinho. Assim, também conheço você, Raquel, como se tivesse lido seus livros de décadas atrás – com a vantagem de saber que ainda vou ler muitos textos seus daqui para a frente, como se você já fosse uma “escritora” (você é), como se seu texto já fosse um dos mais interessantes da literatura brasileira (ele é), como se eu tivesse, no futuro, a possibilidade de saborear esses textos-diálogos de uma “autora” (você já é). Só a maturidade nos dá essa sensação de segurança ao encontrar um texto que é nosso, é nós, independente da existência da “fama” de um “autor”. O que a “história da literatura” vai dizer de nossos textos não importa. O que importa é essa palavra alada, que não pára, e nos distrai da solidão.

Renato Tapado
novembro de 2001