Para Norberto Depizzolatti

Aspiro na fotografia um ar de passagem. Cada grão é um passo perdido, um caco de memória cristalizado numa imagem. Passos sobre a própria passagem, branco sobre o branco, em texturas espirais.

Vislumbro em preto e branco essas manchas fixadas no nada como a espera de uma espera: a volta que não há, o labirinto sem retorno, o peso das horas. Paradoxo, pois o que passa é, também, a precisão de um instante crispado sobre o tempo.

Cravo o olhar naquilo que se foi, pesco nas águas cinzentas algo que resvala, escapa para o fundo sem fundo da foto, lá onde a memória se confunde e o que sobra, o que soçobra como grãos no oceano, se espalha.

O artista trabalha para deixar rastros.

Cada traço preto sobre o branco é uma pegada. Imensos desertos com a presa atrás da pedra. Onde o felino espia a possibilidade do ataque. Quando as horas aceleram a fome da fome, na curva do minuto incendiado de esperas, no segundo abarrotado de saliva e sílabas.

Mordo a inconsistência da imagem. Comunico a minha mudez ao branco do branco sobre o tempo inapreensível como areias. Fotografo a falta. E nessa lida, no pressentimento de que tudo é passado, busco o restauro do que ainda não é, na solidão das gavetas acesas.

Apago as luzes para ver melhor. Me calo na calada do dia, como quem escuta o ruído do intervalo, contra a fala unânime que massacra. Desligo o palavrório sem pausa, a falação violenta sem nuance, a boca aberta que domina a rua.

Procuro o silêncio de tons acinzentados sobre a mesa. Me distraio com o desenho calado da foto. Escuto essa mudez de gravura inscrita na imagem como as pegadas de um gato.

E então, como quem parte sem malas ou palavras, apenas com o aceno ao nada, vislumbro esse vasto mundo que se esgueira por entre os contornos, as manchas e os traços em relevo virtual, como sílabas que me dizem, mudas – como o mar interminável –, o que jamais vou esquecer.

Renato Tapado
Dezembro de 2001