Para Néstor

Então é quando as distâncias se cruzam, não para apagar o tempo, mas para marcá-lo como uma gravura, na tessitura de tudo, nessas águas ao longe que vejo, azuis, na gramatura do dia, essa névoa transparente que atravesso, nu, em meio a pássaros fantasmas. Então nesse momento é quando temo a perda de um ponto, de um segundo que corre, ileso, na pele de uma carta ou de um desejo, tênue, e uma folha que esvoaça e já é seca: música que acaba, na pressa das horas, antes que o vento retroceda, antes que.

Depois é uma aventura às avessas, percorrer o corpo sem data e sem começo, caminhar num musgo árido, sedento de sal e teias, onde a noite vira pêlo, pétala. Nesse coral onde mergulho, tudo é cinza como a chuva batendo na vidraça, água, doze graus: é como se o início (disse Vinícius Alves: o começo é sempre inenarrável) fosse inócuo, e ainda insólito, e é partida, motor e arranque: e não sei o que há detrás da curva - no paralém da pessoa, na “saudade do futuro” (Mauro Pommer). Mas é aí que teço, parado, o sonho de tecer, como uma aranha, um hábitat fatal, onde a vida se tece e se desdobra contagiada de mar e areias, e então aquele tempo pára, a névoa parte, pássaros materializam-se. É quando escuto a própria voz em eco num grande muro de pedra a rebentar martelando-o, com a língua e a pontapés, até que caia o que parecia sólido como uma casa, mas que era somente pó sedimentado do hábito.

Assim, agora, o que ouço são vozes mescladas, com cores várias, no trajeto que faço de mim a mim, atravessando o dorso do silêncio, na pele de outros olhos que vêem as mesmas águas azuis e a mesma tela, o mesmo espaço, os desenhos que cabem numa carta.