Para Maria Emília de Azevedo

Há uma imagem de pedra no meio do caminho. Caminho por alamedas e vielas, atravesso jardins e estradas de terra, e fujo das miragens. Contemplo a vastidão das ruas e desvio o olhar. Há uma dureza incrustada no ar, olhares duros na mediocridade diária, que vigiam e perseguem. Busco em cada passo o interstício da figura, o intervalo da massa visual, o que está fora de quadro. Tudo é uma quimera de pedra, tudo conflui na mesmice do inerte, do granito a granel, com a consistência de um tiro. Nunca me esquecerei desse antiacontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma imagem de pedra, aquela que conta verdades mentirosas, que brilha mais rápido e com mais nitidez para traçar a perfídia e o engodo gerais, para desenhar a estratégia de um panóptico, global, na esfera do que não abala nem pergunta. Eu busco é a imagem selada, noturna, sem a legenda dócil. Eu busco a inconstância do nada em sua aparição errática na tessitura de um abalo, de um corpo poetizado pelo que se desvia, lírico, dos sulcos já traçados. Dentro da noite lenta, no grão do grão, à espera de um silêncio. Desvio da imagem de pedra para chegar à textura de uma pele escura, no ritmo da vela, na iminência de uma dúvida erguida contra a arrogância de uma exclamação já conhecida. Me deleito é com a fotografia do nada. A ver dunas abissais e seu contorno fugaz. A ver o mar inabalável na impossibilidade de ser o mesmo, sempre, como a chama que aquece a página em branco à meia-noite. É quando espero o uivo do lobo à caça de uma sílaba esquiva, no labirinto de uma imagem fugidia. É quando amparo o silêncio da fome que abarca a lua, as nuvens, essa noite que toca meu corpo contra a violência das imagens vendidas e compradas. Então, como quem rói um vício alimentado por cinemas de luxo e de lucros, vislumbro a mínima imagem de um inseto, de uma pétala, de uma pata cujo pêlo se eriça ao debruçar-se sobre o lago, espelho de um céu noturno, silencioso como a neve, na gramatura de um abraço sem véus: a foto de um enigma. E encontro, contra a dureza do olhar das medusas-mídias, a leveza de uma pluma azul, de uma palavra azul, repousando sobre o branco de uma tela, de uma página, como quem tece o impossível.

Renato Tapado
novembro de 2001