Para Lourival de Andrade

Então, estamos no tempo da mascarada: é o trabalho do tempo hábil e perverso sobre as faces, a dobradura dos dias, quando todo afago no intervalo, no outro lado, é golpeado pelo gesto duro das horas. Meu salto é o do saltimbanco, preto no branco, tinta no papel. Meus papéis se embaralham na mesa e no espelho, limpo minha própria cara de maquiagens estranhas e incorporo meus próprios olhos. Mas no balé das noites misteriosas, na geografia dos bares e das gentes, encarno o que me falta, a ausência que se apresenta sempre em mim como um vestuário, o lado obscuro da libido, um dardo-Buñuel. Então, nada me escapa: nem o perfume que passa e se dissolve, nem a voz que se distrai perambulando pelos temas e surpresas, nem o gosto do líquido sobre o calor dos lábios, nem o corpo que aparece dançando e me compele ao lado ave do delírio. Nessas horas, nesses instantes em que o tempo pára, tudo é provável como o pássaro ao mirar o peixe. Mas nada se salva, nada se transpõe, somente sobram letras dispersas sobre a mesa como a máscara jogada sobre a cama depois do trabalho de baile. Todos os toques, todas as mãos solicitando impulsos para algo, para o mais, o amanhã, em meio a um público feliz que esconde suas mágoas atrás de si. Não temo essas verdades. Para nós há sempre a chama de uma sílaba a restaurar presenças. Há o sabor que não se encontra, mas que conhecemos. Há a fonte inesgotável de manhãs a preencher e tardes a durar, como os outonos cobertos de luzes cristalinas. E, depois de tudo, depois de buscarmos o que vai, fugaz, detrás das roupas e palavras, sem retorno, sobra o tempo implacável e suas andanças, o tempo que no embate com o desejo sempre empata, posto que é forte e fraco como gestos, falas, linhas no papel.

O ator está sempre só.