Para Lourival de Andrade

Lembremos de Artaud.

Caminho hoje pela cidade e o que ouço é um amontoado de ruídos. São desencarnados, amassados, vis em suas horas marcadas. Gestos sem vertigem. Falas ora mansas, acomodadas ao lodo, ora coléricas, qual papagaios irados. Dicções ocas. Evoluções inertes nas calçadas. A gramatura das vozes é opaca, a fala trava. Não têm a premência do grito, nem do salto.

Lembremos de Artaud.

As ações que testemunho não deliram. Nada incita, e não há o que incite ao nada. Tudo tão adequado, e não está, mas está. Num meio aquoso, amorfo, soletro para as estantes. Estou farto da ignorância da falta. Tento dizer algo e sempre falho. Dobro as esquinas e não chego. Desisto de representar, pois não divirto ninguém. Tenho muito a calar. E meu corpo se esgueira por entre os outros querendo ser a paciência secular da árvore, sem sucesso ou sossego, só assim, passo a passo rumo à volta na quadra, e fim. É nas paredes nuas onde gravo gritos. E engulo a saliva demente. Sem crença, nem futuro, com o aqui infinito e inflado, rabiscando resquícios de reclamos. Sem religar: mantendo o diviso, fora dos trilhos, dentro da penumbra. E só aí fincar, como no deserto, uma haste de sílabas em brasa para fustigar o frio que vem crescendo, implacável, nesse ar que tudo envolve, esse céu que sufoca. E aí sim, nessa espetada na terra, lanço um grito para ninguém, apenas para a primeira estrela que se desenha, tênue, nos olhos do puma.

Lembremos de Artaud.

Renato Tapado
novembro de 2001