Para Jayro Schmidt

Toda circunstância nos aperta, como a um tubo de tinta branca. O mar, como tudo, é inacessível, nos seduz num abraço apenas para mostrar que, nele, nosso andar é difícil, tamanha a massa de água. Mas tenho o mar em mim, em meus olhos úmidos, em meu corpo com sede. Paro na sacada e espero. Limitado pela mureta, me amplio no olhar e abarco uma profusão de cores. Invejo a inércia das árvores e o movimento inconseqüente do vento. Invejo o gelo. Espremido pelo tempo, pinto a sensação do fracasso em cores vivas. Planto na tela a impossibilidade. Por isso tenho que rasgá-la ou queimá-la. Tudo na precisão de um instante arqueado pelo gesto, tudo no impasse de um grito. O ardor também não dorme. Incendeio a palavra no meio do mar, e o que sobra são as cinzas de uma página forjada. Tempo é para recolher-se pós. Pigmentos com que cobrirei as telas – com quê? – com essa qualidade inata do nada, branca como o vento, mas disposta à textura de uma palavra erguida contra o dia sem cor. Tudo é igual em Arles, Tahiti, Abissínia. Mas encontro a minha cor, translúcida, à margem da página, aquela que não é, à espera, quando a pintura abalar, por fim, a estrutura do tempo.

Renato Tapado
novembro de 2001