Para Iur Gomez

Gasto os dias na espera de um quê. Vejo as horas caminharem sem sentido, na esteira de um minuto aberto para o nada, na procissão de segundos sem fé. Caminho e não vislumbro. O escuro do início ao fim do túnel. Passo os dias à míngua, na fome de algo novo, na crença sem futuro de uma idéia que vingue. Quanto mais escuto, menos quero ouvir, a não ser a força de uma espera radical, a não ser o grito de um minuto exacerbado pela mediocridade das horas. Passeio e o que vejo são misérias. Espero pelas imagens que não chegam, imagino a fonte de um cotidiano que não há, crio fantasmas.

Todas as fomes a fome. Quando a noite, onde. Na pressa de uma madrugada a álcool, na sede de um beduíno sem camelo, à espreita de um oásis. Sou o que não se disse. Escuto o ruído do mundo e me exaspero. Procuro o silêncio de um saber sem glória, sem alarde, como a gaivota em seu vôo despretensioso rumo ao alvo.

Tudo é um cinema sem medo. Tudo é imagem dilacerada pela média, pela lama, pelo nada. Tudo se oculta sob a pele de uma farsa. Rajadas de discursos ocos. Podres pétalas de língua. Uma linguagem pó. Pá sobre a beleza das sílabas.

Escrevo para um caixão. O óbito da vida óbvia. Escrevo para a concretude da pedra no perigo da explosão. O muro martelado até o fim. Rabisco a inconsistência de ser e afago a falta. A falha sob a pele e seus desejos. A vida sufocada sob as horas. Incito à imensidão do não e suas farpas. Não há poema que me satisfaça. Não há imagens suficientes para deter a massa. Minha resistência é sem roteiro. Circulo pela dúvida erguida como uma bandeira rota. Esqueço as promessas e desconfio de tudo. Tudo é estreito, tudo é ilha. Busco a travessia sem fim, a nau dispersa pelo mar, o rumo sem chegada. Acumulo sílabas para me distrair do tédio, como o vôo da gaivota sobre a espuma.