Para Hugo Mund Jr.

Há uma foto de Hemingway, num livro de fotos e textos sobre sua vida em Cuba, que é memorável e intrigante: ele está de costas, de short, sandálias e sem camisa; se apóia sobre uma mesa, ou algo parecido, coberto com uma espécie de toalha, ele inclinado com o peso do corpo sobre a perna direita, a esquerda levemente flexionada, de modo que o pé esquerdo esteja com a ponta no chão; não se vê seu rosto.

Hemingway escrevia assim, de pé. Flagrado nessa posição, essa foto não convencional é, entretanto, eloqüente: a informalidade, a paixão dele em escrever que lhe mantinha em pé, o calor cubano que lhe lembrava, ao escrever, o mar, a indiferença para com a câmera, as mãos e o rosto invisíveis: não apreendemos o processo de sua escrita - ele escreve sobre a experiência, ele tinha a experiência para escrever.

Perto dele, livros. A foto está um tanto granulada, o que acentua a impressão de flagrante, de indiferença de Hemingway, de espaço onírico. O que o mantinha de pé ao escrever, em meio ao clima convidativo da piscina, no meio da manhã, dentro de sua casa - a Finca Vigía, nos arredores de Havana - sem que sua mulher ou os gatos se intrometessem? Por que ele dá as costas a nós, ao fotógrafo, suas largas costas nuas e uma barriga visível encorpada como suas pernas, ignorando nosso olhar ou sua roupa ou a arrumação da casa, ou o clima e o tempo que passava enquanto ele compunha um texto?

Nesse exato momento, alheio a tudo, o que Hemingway caçava, senão um leopardo talvez já morto, ou extinto, ele que também, como nós, estava preso a essa névoa que não se esvaece, esse movimento de caça e caçador perigoso como o dorso do tigre?