Para Ana Luiza Andrade

Te escrevo, agora que faz um frio maior, e o vento que vem do sul açoitas as vigas de madeira que vejo aqui perto de mim, e o cinza do céu que cobre o mar como chumbo, e os pássaros que não sei onde estarão, buscando algo que comer, talvez, te escrevo agora que o dia não se define, as coisas se borram como nuvens pesadas e a chuva fina dissolve uma imagem clara, limpa, e o verde das árvores aos milhares se escurece, se confunde, como letras, e as ruazinhas, os caminhos, como linhas, frases, intactas, solitárias, num labirinto estático, mudo, onde não passa nada, onde quem sabe alguém está à espreita numa encruzilhada, onde não há vestígios de passagem nem letreiros indicando o destino.

Te escrevo, então, do centro dessa paisagem sem cores, úmida, que me dispõem centenas de motivos possíveis, mas não sei sobre qual deles debruçar-me, o que fazer para que esta carta diga o que deve dizer, as coisas em seu estado pulsante, a areia da praia, o mar bravo como imensidão sem barcos, sem ilhas, sem pescadores, sem nada. Te escrevo de onde há fome: isso que vibra, que incomoda como palavras soltas, sem consistência, sem o peso no estômago, sem metabolismos completos, de onde a química não traz um resultado, um sabor, um fim, apenas o adiamento, uma próxima refeição, talvez amanhã, talvez nunca, quando o tempo dirá o que tem a dizer, o que as coisas têm a dizer, o que teremos a dizer, ou não, então o sol pode voltar a cobrir de claridade as linhas, árvores, pegadas, letras, postes, e o azul intenso dessas águas que vejo aqui de minha janela seja o impulso, a boca aberta para uma palavra, oca, cheia, uma garrafa que se lança ao mar e que se perde, ou afunda, esse naufrágio que é toda escrita, a terra que não está à vista, e no convés brindamos por esse momento explícito, essa violência do tempo que não pára e não indica, algas, águas, que não cabem numa carta.