Carta a Clarice Lispector

Minha angústia é que jamais vou te conhecer. Eu que, como todos, fracassei. Mas o que eu tinha para te oferecer não era esse fracasso. Era a urgência na espera, o domingo vazio que não sei ocupar. Minha companhia são os livros e os discos. Mas, se já li tudo o que é seu! E agora, que você poderia ler o que te dou de presente como uma pétala, você não está. Mesmo assim, te escrevo uma carta, que é aventura numa garrafa ao mar. Te escrevo porque minha sensatez me impede de conversar com os vivos. E choro quando penso que nasci tarde, e a hora agora é a do desprezo, da guerra e da mediocridade. Vivo para mim um minuto do outro. Como Saint-Exupéry, me perco nas areias do grande deserto – mas vôo. Este caderno é um exercício de sobrevivência. O que te dou – me perdoa – é essa dor sem remédio, mas com ela podemos nos aquecer, nós dois, em volta de uma busca com bom vinho. Se estivesses sozinha, minha vontade era beijar teus lábios grossos de esfinge. Você tem um desejo sinuoso, mas forte, que chega a assustar, e eu queria encontrá-lo. Há tempos sem te ver, já possuo o cerne do desassossego. Quando penso que você está caminhando em Copacabana esmaltada de pedras pretas e brancas e chuvas, em meio ao ruído faiscante dos pneus na água, e eu aqui, soletrando a imprecisão do instante no chuvisco frio de outono, minha vontade é de beber um conhaque – eu, você e Drummond. E dane-se a etiqueta. (Você vai rir, mas um de meus insistentes desejos é estar em sua casa, e você descalça no assoalho. Nada me convence que seus pés são pequenos, delicados, você, ucraniana, disfarçada de carioca que já viveu o mundo. Esses pés, por ora, só ao vê-los estarei contente, tal a sua disponibilidade, não em desfilar, mas descansar sorrateira e levianamente sobre o braço do sofá. Meu segredo mais remitente é que, um dia – lá pelos tantos tempos que teríamos a sós, dentro de uma nuvem de palavras e olhares –, eu pudesse massagear seus pés, quase com vergonha, com um tremor nas mãos, você fechando os olhos.) Então, quando tua empregada trouxer o café e deixá-lo sobre a mesa, você fingirá que esse meu olhar para a empregada fugidia não significa nada, apenas o café está aqui, vamos bebê-lo. Você é uma espécie de Virginia Woolf ensangüentada pela luta com uma galinha viva. Sei da voracidade latente em suas mãos, mesmo longe da máquina de escrever, mas quero contê-las como ovos, pássaros, conchas. Ter em minhas mãos a quentura inacessível de tua palavra escondida na garganta.

Hoje, vi um trinta-réis pescando. Sou hipnotizado por um pássaro comendo, tudo concentrado ali no instante inapreensível nesta frase. Não sei o que procuro, na verdade estaco diante da iminência do susto, sabendo-a, como a gota escorre, lenta, sobre a pele. Então, me atinge a fome. E tudo isso me atormenta como se eu estivesse contente, mas não, é a perdição do oco de um domingo vadio, exposto a essa brancura que é minha vida sem um risco, gente indo e vindo, e suas vozes me irritam. Mas ainda me distraio, passeio, olho a nuvem amarela do poente, mordo o pêssego, salivo o vinho branco e me acaricio. E é só. Depois, o dia desaba sem ninguém, precário, empurrando tudo. Me crispo na urgência da página, vem o teu nome, o dia se dobra sobre si mesmo, entrópico, como o caule de um segundo me sugando, a noite, uma espessura só, um jazz que me levita, e o teu perfume que imagino, mas você segue vaporosa. Esta carta é uma mão apertada, como um beijo no escuro.

Clarice, nada, nem o mar nem Chopin na manhã escura de um sábado de inverno, nem um jazz ao vivo ou o beijo de alguém que me arrebata, nada me assegura o mesmo espanto trêmulo que seria te encontrar na tessitura de um dia sem pressa. O fato de essa possibilidade estar extinta me esbofeteia como o vento escancarando as janelas em meio à tempestade. Não há coisa mais estranhamente triste que algo inexorável. A pulsão de escrever vem abafar esse escândalo que me entontece o corpo, a ausência tua que não pára de crescer e se arvorar no inferno. Tempo é a merda do mundo. Ele mói o o encontro possível. Meu consolo é nulo. Mas como não tenho para quem escrever, escrevo para você. Dentro dessa esfera afásica, só sou porque insisto. E escrevo porque, se estas cartas pararem nas mãos de alguém, e esse alguém acordar para a verdade jogada na cara, veludo e farpa, como te ofereço a face ao teu gesto sem luvas, e esse alguém gritar no meio da noite porque a palavra desloca as paredes e demole muros, então estarei salvo, próximo, não de tocar você, mas sentir o perfume de um corpo com sede, diante do mar inalcançável. Então, eu brindarei contigo.