Somos de vanguarda?

É próprio da civilização o caos: não há absolutamente nenhuma experiência na história que demonstre ser o processo civilizatório um caminho rumo à ordem, seja ela de que natureza for: de justiça, de racionalidade ou de uma união entre arte e vida. Assim, por exemplo, a discussão no marxismo sobre a falsidade da idéia de Malthus sobre a superpopulação como causa da pobreza já nem tem mais sentido. Quer pensemos que o crescimento populacional é causa, quer pensemos que é conseqüência da pobreza, o fato é que ambas continuam crescendo, e não há teoria, projeto social ou plano econômico que reduza os efeitos de devastação da civilização sobre o planeta — a não ser que se renuncie à própria civilização, opção que não pertence a nenhuma filosofia ou teoria, moderna ou "pós" moderna, que eu saiba.

Da mesma maneira, a questão das vanguardas artísticas em relação a um projeto que teria sido fracassado me parece que se baseia em premissas inócuas.

Admitir que as vanguardas possuíam um projeto dentro da tradição crítica à modernidade capitalista me parece problemático. Se é certo que foi comum a diversos artistas de vanguarda a crítica à distância entre arte e vida, ao empobrecimento da experiência, também é certo que esses artistas não constituíram um "projeto" definido, nem levaram essa crítica às últimas conseqüências, ou seja: atacaram alguns aspectos da realidade, mas dentro da idéia de transformar o mundo (por exemplo, a adesão dos surrealistas ao comunismo). As vanguardas não só acreditaram, então, que poderia haver uma transformação social, como pensaram ser uma força propulsora. Nos anos 1950-/60, isso se repetiu: a idéia de "vanguarda" como o que está "à frente" da sociedade.

Parecem, então, estar subjacentes à idéia dos artistas dos anos 1910-20 uma crença e uma aposta numa solução, tanto da união entre arte e vida como do cotidiano empobrecedor da modernidade. Mas, na verdade, o "projeto" das vanguardas não passa de um conjunto de idéias e práticas culturais dispersas, mas lido por nós como uma força compacta. Na verdade, então, se há nessa leitura uma indicação de que as vanguardas possuíam um projeto de reconciliação da arte com a vida, do mundo com a experiência, da realidade com sonho, talvez isso mostre mais claramente que nós tínhamos esse projeto ou, pelo menos, esse sonho frustrado, uma noção de restauração ou reconciliação de algo: uma presença.

No caso do filósofo alemão Jürgen Habermas, essa idéia é clara: tudo o que ameaça a estabilidade de uma presença — seja ela a de um referencial seguro para um "projeto moderno", seja uma tradição filosófica a que se vincular (o Iluminismo), ou um futuro ao qual se apegar — é perigoso.

Penso que a crença de Habermas é moderna, se admitirmos que ela fazia parte das práticas dos modernistas. Mas se lermos as vanguardas de outra maneira, poderíamos pensar também que a crítica à idéia de reconciliação, reunião ou um futuro seguro já existia na época das vanguardas — e antes delas -, e essa crítica não só atacava o mundo burguês como a crença numa "solução" para a civilização. É só citar, por exemplo, Baudelaire e Kafka.

O cineasta russo Andrei Tarkovski escreveu que a noção de "vanguarda" em arte não tem nenhum sentido — a não ser, como dizia Baudelaire, para os que só podem vivem "em sociedade", preocupando-se, claro, em ser "os que estão à frente" dela. Penso que a arte não tem o poder de reconciliar coisa alguma, a não ser o artista dividido entre sua necessidade de uma outra experiência e o mundo que a proíbe, e sua própria produção artística. É nessa tensão que ele tem que viver para marcar suas diferenças, para trabalhar incessantemente, mas sem a pretensão em transformar o mundo. Os que vêem nisso um "niilismo" ou um "pessimismo conservador" apostam na mesma crença mantida pelos verdadeiros condutores da civilização — os donos do poder -, ainda que por um sinal negativo: qualquer projeto civilizatório se dirige a um abismo.

Jürgen Habermas diz que "o modernismo é a nostalgia da verdadeira presença". Ora, toda civilização sempre andou à cata dessa "presença": seja pela religião, seja pela arte, pelo erotismo, pela marginalidade, pela boemia. Mas não se pode confundir uma necessidade inerente a nós, que se transforma conforme as condições históricas, com uma crença em que essa necessidade será resolvida. Abandonar a idéia de um futuro seguro não é niilismo. Niilismo é abandonar-se ao futuro. De todo modo, niilismo seria abandonar o presente — por uma promessa de futuro ou o resgate de algum passado.

Para Habermas, há ainda uma possibilidade de "apropriação da cultura dos especialistas a partir do ponto de vista do mundo da vida". Ora, a apropriação se dá pela mídia, onde a cultura já foi enlatada para consumo saudável para as massas. Acreditar numa reunião entre arte e vida cotidiana (por onde? Pela mídia? Pela escola?) nada mais é do que uma nova re-ligião (de re-ligar). É um novo messianismo que, seja da ciência, seja da política ou da arte, deve ser esquecido.

Comecemos por esquecer as vanguardas.

(Publicado no jornal A Notícia, 1996.)