Sobre uma exposição de Adriana dos Santos

Vivemos num mundo de experiências fragmentadas: as imagens da TV, os discursos políticos, as práticas artísticas, tudo parece estar constantemente em descontinuidade, estranheza e opacidade. Que sentido tem a arte nestes tempos de perda de referências? Inventar um "retorno" a uma falsa origem? "Acomodar-se" à confusão contemporânea? Nem uma coisa nem outra.

Aparentemente, os desenhos de Adriana dos Santos propõem um recurso à uma interioridade, longe dos conflitos atuais. Daí a presença do círculo, símbolo da totalidade contra o fragmento, da psique contra o peso do mundo; a concha que, segundo Bachelard, é a imagem do "espaço protegido" e, ao mesmo tempo, "a dialética do ser livre e do ser acorrentado"; as formas ovais, na referência à origem, a uma essência que pode "preservar" o artista contra a realidade (Van Gogh: "a vida é provavelmente redonda").

No entanto, essa suposta "fuga" é mera aparência: Adriana relativiza a "pureza" e a segurança desses espaços interiores. Seus desenhos também insinuam cavernas, espaços escuros; as cores predominantes são o preto e o cinza; os fundos são muitas vezes vazios. Adriana problematiza o sujeito, mostrando-nos que o espaço da arte não foge da vida, mas se enfrenta com ela: se o procedimento gestual indica a subjetividade do artista, Ariana constrói uma gestualidade nervosa, insegura; se a figura marca sua presença, é de forma irregular e sombria. Ao mesmo tempo, os desenhos seduzem como possibilidade da arte diante de tempos sombrios: a delicadeza do lápis e dos tons azuis, a liberdade das linhas, a presença vital das conchas, dos círculos, dos amplos espaços.

Adriana não busca o espetáculo, mas a contenção. Em meio a tantos discursos enganadores, ela afirma o desejo de ser da arte como arte de ser: do mínimo, o artista busca o máximo, que é a sua maneira de nos colocar no centro de uma paixão, a do pintor pelo trabalho, a do mar pela concha, a da arte pela vida.