Sílvio Sheuca

En esa ausencia se abre una torre, en
esa torre baila un fuego hueco.
Lezama Lima


As cerâmicas de Silvio Sheuca atraem ao toque, mas são ásperas: texturas de areia e pedra que nos puxam para um interior — do quê? — com seu imaginário de funduras, cavernas, terra a terra.

Mas essas formas também se elevam, como torres, incitando a espaços aéreos. É que essas peças não são simples: Silvio Sheuca mescla a acumulação com as aberturas, o orgânico das formas com o inorgânico do material, a imagem de erosão com a de sedimentação, a concreção do barro com o oco das esculturas.

Nesse jogo de opostos, desenha-se uma tensão: o da fixidez e do tempo, a imobilidade da argila e o movimento das horas que viram o processo escultórico, o fogo que ardeu para existir a peça. Mas essa tensão entre o que fica e o que é fugaz se desdobra em outra: a do desejo e seus limites, a do falo (os cilindros, as torres) e da vulva (as aberturas), a do penetrante, duro (matéria e sua forma) e o oco, o receptivo (o interior das peças).

No intervalo entre um desejo e outro, nesse espaço entre pulsão e realidade, nessa ausência que se quer preencher com a presença do corpo, o que há?

Há um mistério, que é primeiro e cru (como a argila) e sempre arde (como o fogo), há uma dança oca que contém o desejo do desejo, há a vida contra a morte, a criação contra o silêncio, e uma paixão que se esconde no interior, no miolo amoroso das cerâmicas que, por isso mesmo, pedem ser abertas.

(Inverno de 1993.)