Rafael Rodrigues e uma poética do desvio

Ainda chamo Rafael Rodrigues de "artista plástico", mas já sem convicção, duvidando desse rótulo e usando-o, ainda, por hábito, antes de criar uma nova palavra — ou não criar nenhuma — para referir-me a seu trabalho, que é, antes de tudo, poético.

Rafael já desconstrói a idéia mesma de "produção plástica": ele não produz, mas transforma, apropriando-se de materiais abandonados por nós ou pela natureza e, nesse gesto, cria. Não se pode "encomendar" uma "obra" de Rafael Rodrigues: ela, de certa forma, não é uma obra nem será construída a partir da aplicação de técnicas e materiais específicos (como a tinta).

Rafael parte de elementos despojados, crus — como o ferro e a madeira — e prepara com eles uma poética da leveza, o acasalamento.

Ao mesmo tempo, esse trabalho reelabora o sentido da essencialidade e autenticidade da arte: ele busca o mínimo, o pobre, o abandonado numa rua ou praia qualquer do mundo, para integra esse objeto à vida: o gesto de Rafael inventa.

Definir essa invenção como escultura, objeto ou qualquer outro nome pode confortar alguém, mas não diz muito. O que aparece, novo, no mundo, o que se impõe nessa relação frágil e, ao mesmo tempo, densa, entre os materiais manipulados por Rafael é um resgate de algo que está antes, fora, além da arte. Além do mais, a "arte" de Rafael Rodrigues é de equilíbrio efêmero: a tensão entre o ferro e a borracha, ou entre uma madeira e outra pode se desfazer a qualquer momento. E tudo, então, volta a ser mera possibilidade, como cada dia que amanhece ou cada pássaro migrando de volta.

Todas as definições e projetos ambiciosos, quase arrogantes, de vanguarda se dissolvem diante de uma criação de Rafael: ele não busca o "novo", porque não crê na ficção da "originalidade" nem num saber que procura deter a estética "mais avançada", etc.

Rafael projeta, à margem do mercado e das artes plásticas, uma poética do desvio: por isso, somos forçados, sempre que nos deparamos com algo criado por ele, a revisar o tempo, a desconfiar da arte "bem-feita" e de acordo com as artes oficiais, a perder o caminho já gasto da norma para tentar, de uma vez, arriscar outros passos, quem sabe para onde, mas que trarão, sem dúvida, a recompensa de um desejo.

(Abril de 1994.)