Paulo Gaiad

A poética de Paulo Gaiad se pauta por uma espécie de ascese invertida: o sujeito parte de uma expressão mínima para buscar o máximo de emotividade. A essa estratégia, corresponde também um "classicismo" da subjetividade: do equilíbrio e da contenção, o artista explora as aberturas do eu.

Por um lado, a pintura de Gaiad trabalha no limite: as formas se mantêm geométricas, as poucas linhas não possuem contornos fortes, as cores têm tons pastéis, sem jamais chegar à expansão de um vermelho, por exemplo; as figuras de animais e pessoas são esboços mínimos, a perspectiva é um artifício e, ao mesmo tempo, constrói uma forma medida, contida, de uma leveza e um equilíbrio impressionantes.

Por outro lado, esse comedimento formal revela uma relação altamente poética e sensível do sujeito com o mundo, que não é um mundo qualquer: na pintura de Paulo Gaiad, a forte presença da natureza, do espaço doméstico e da infância tece um ambiente imaginário que é, ao mesmo tempo, biográfico. Aliás, é nessa biografia pictórica que Gaiad se move: a destreza e o rigor do arquiteto, a sensibilidade e a introspecção, a vivência perto do mar e dos pássaros se mesclam para compor partituras subjetivas.

É o caso das "39 páginas de uma vida" e também da presença de textos nas telas que lembram diários ou cartas, mas não são: Gaiad finge como Fernando Pessoa.

Sua pintura é, assim, uma viagem: nos campos, águas, passarinhos, jogos de infância, trechos de diários, cores e formas tranqüilas, traçamos o itinerário do devaneio. Aquele que nos devolve àquilo que não somos, mas poderíamos ser.

(Setembro de 1992.)