Os "Auto-retratos" de Paulo Gaiad

A pobreza da arte contemporânea (mas também do teatro, do cinema, da literatura) tem a ver, antes de tudo, com a mediocridade da cultura em geral, dominada pela mídia, e pela mentalidade da aparência e do engodo. A liberdade que a arte conquistou no século XX também é sua prisão: um vale-tudo no qual qualquer um vira artista com umas poucas pinceladas, uma armação de ferro oxidado, um rabiscos no papel.

Ao extremo formalismo na literatura (crença valorizada já a partir de Edgar Allan Poe, Paul Valéry e Mallarmé), que cultivou a idéia do trabalho, se uniu o formalismo sem trabalho, fácil e rápido das artes plásticas. Os dois caminhos se perdem ao esquecer que qualquer obra de arte tem, obviamente, um conteúdo, e que esse conteúdo é fundamental para que uma obra se sustente, provoque leituras instigantes e esteja à altura das questões mais interessantes sobre a vida e a condição humana. É claro que a noção de "vanguarda", por si só, não dá à obra essa qualidade, porque a vanguarda está mais interessada na mística do novo.

Tamanha é a crise da arte contemporânea, que muitos estão pleiteando uma volta, de alguma maneira, à figuração, como se isso fosse resolver o problema da qualidade artística. Ora, a qualidade da arte depende em boa parte da visão de mundo do artista, de seu conteúdo crítico e provocador, e de seu talento plástico para materializar essa visão.

O trabalho mais recente de Paulo Gaiad, chamado "Auto-retratos", é um exemplo de obra de arte com uma qualidade incomum no cenário contemporâneo. Gaiad se utiliza da liberdade criativa — que já é tradição no Ocidente — para lançar mão de telas, panos, papéis, ferro, fotos, como materiais, e técnicas de pintura, desenho, montagem e a própria escrita, não para fazer uma "salada" desconexa, mas, ao contrário, para se concentrar na construção de uma obra coerente. Essa coerência articula esses materiais e técnicas diversas numa visão singular da subjetividade contemporânea — outro fator muitas vezes relegado a um segundo plano pelo extremo formalismo, que evitou o subjetivo mais explícito.

Recorrendo a outra tradição ocidental — a dos auto-retratos -, Gaiad faz um gesto irônico ao apresentar esses auto-retratos, não do artista, mas de diversos amigos. De modo que sua própria subjetividade é perpassada pela subjetividade dos outros, uma maneira de aceitar uma cumplicidade da amizade que relativiza a autonomia do sujeito-artista e dá importância ao outro. Ao mesmo tempo, o que faz Gaiad não é uma mera exposição da intimidade dos amigos. Essa exposição, quem faz é a mídia e seus programas de voyeurismo social que mescla o grotesco ao simplório, com toques de sadomasoquismo que tanto agradam ao público midiático. O trabalho de Gaiad, ao contrário, recupera a riqueza de identidades que não fazem parte do circo da mídia e das colunas sociais, mas que participam de um mundo marginal a isso, com a singularidade dos que constroem uma vida na contracorrente da pobreza cultural e moral contemporânea. Em uma palavra: a vida dos que tentam, de alguma maneira, ser diferentes.

Não se trata aqui do slogan vanguardista "mudar a vida". É claro que queremos mudá-la, mas Gaiad, em vez de propor essa mudança e impô-la ao outro, em vez de propor "a" estética ou "a" mudança, interpreta o outro e exibe, honestamente, essa interpretação para que também possa ser compartilhada — e criticada — por nós, para que também pensemos sobre a vida que, às vezes, deixamos escapar por não parecer importante. Aqui, o que está em jogo é um olhar sobre gestos, posturas, comportamentos cotidianos que, sim, mudam a vida e mudam os outros em sua tessitura sutil, mas permanente. A maneira mais fácil de fugir disso, ou seja, escapar da discussão sobre a vida (que é o que interessa a toda arte, a toda literatura), é abraçar um formalismo estéril, usando mil recursos "contemporâneos" (ora, tudo é contemporâneo, o que é o mesmo que dizer que ser "contemporâneo" é não ser absolutamente nada).

Gaiad encara a vida também expondo a si mesmo mais explicitamente por meio de caixas de metal com alguns objetos que remetem à infância e a mistérios de que não participamos totalmente, além de um álbum com textos e fotos do processo de criação. Quer dizer, além de trabalhar sobre a sua subjetividade e a dos amigos, Gaiad expõe o processo de trabalho (outro tabu muitas vezes estimulado pelos criadores, o de não mostrar o "andaime" da obra).

Como se não bastasse tudo isso, o trabalho de Paulo Gaiad também é belo. É claro que a beleza está tão desacreditada hoje em dia pela carga conservadora, romântica, que traz e que pode significar comodismo, aparência, superficialidade. Mas, ao mesmo tempo, não prescindimos nunca da beleza — ou belezas, múltiplas, dependendo de cada olhar, de cada visão de mundo -, que torna a obra mais eficaz em sua provocação e seu olhar crítico que nos lança perguntas, nos abalam em nosso estar no mundo, como se a beleza fosse — e, para mim, deve ser — também um choque, na esteira da convulsão surrealista.

Se a arte, em geral, é inútil por não se entregar à lógica da mercadoria, da "utilidade" social, às vezes também pode se revestir de um outro uso, que é o que nos desloca do cotidiano para entrar num mundo que, em vez de nos deixar resignados, nos comove a ponto de imaginarmos que a arte pode ser, às vezes, indispensável, necessária, vital.

É assim a arte de Paulo Gaiad. Ela também — sem querer, sutilmente — nos agarra e "rouba" a nossa intimidade, não para nos retratar, mas para criar esses laços de cumplicidade que acabamos tecendo, cedendo, sem saber, à sedução de quem estende a mão e torna menos áspera a solidão.

(Junho de 2001.)