O som e o sentido da canção

O que significa a música? Ou seja, que significados ela nos dá? Essa é uma pergunta sem resposta definida, mas acho que posso pensar em algumas aproximações. É claro que estamos imersos na música ocidental e, dentro dela, na música brasileira. Ainda assim, não qualquer música ocidental, mas o jazz, o blues, o rock... E não qualquer música brasileira, mas a urbana, o samba, a bossa nova, o chorinho,  a MPB... E  a música clássica. Para nós, portanto, os "significados" da música que escutamos têm a ver, necessariamente, com essa bagagem que trazemos, esse aprendizado musical que tivemos durante toda a vida. Assim, há acordes "alegres" (geralmente maiores), outros "tristes" (menores), há harmonias tensas, outras relaxadas, há trechos de suspense, de medo, outros de esperança, de promessa... Em todo caso, são "significados" aproximados, abstrato, como os de uma pintura abstrata. No entanto, provocam sentimentos diversos, sim, mas dentro de um feixe coerente, de forma que os vários acordes, a melodia, o ritmo, enfim, os elementos de uma determinada música convergem para esse "feixe" de sensações ou sentimentos que experimento, e eles têm um "significado" coerente para mim.

No caso da canção, além disso, temos um ingrediente nada pequeno, aliás, que possui muito peso, que é a letra. A música brasileira, nesse ponto, é um manancial inesgotável. Ocorre que a letra já traz diversos sentidos pelas palavras, como na poesia. Pode acontecer de eu conhecer todas as palavras de determinada letra de música, como de um poema, embora em muitos casos eu não as conheça de todo, e há uma sintaxe estranha, e todo o texto pode me parecer denso, difícil, etc., como é parte da poesia moderna. Pois bem, mas a palavra já me traz um significado concreto. Se ouço "coração", "tristeza", "flor", "avenida", "bandida", "deserta", imediatamente reconheço o seu significado, ao contrário da matéria musical, que, embora restrita àquela bagagem que trazemos, no caso a brasileira e a ocidental, é muito mais abstrata. Ora, a canção é a união desses dois universos, o da matéria artística abstrata (como uma pintura, e como são a música instrumental e boa parte da clássica) e o da linguagem reconhecível, significante, com "referentes": a língua.

Então, a canção possui essa dupla qualidade, a língua (sentido) apoiando a música (som). Mais do que na poesia (como queria Jákobson), portanto, é na canção que os significados da língua trabalhada pela poesia adquirem uma força e uma carga semântica muito maiores, porque, além do "poema" que é a letra, ainda temos o reforço da matéria musical. Ora, essa matéria musical não "ilustra" nem "apóia" simplesmente a letra, mas ambos — letra e música — compõem uma criação, uma obra única: não há como dissociar letra e música, como é impossível dissociar, na poesia, o som e o sentido.

Resulta daí que a canção faz algo incomparável:  a matéria musical, o som, faz parte do significado junto com a letra, e a letra, o poema, só tem seu significado completo com a música. De modo que, se eu isolar a música ou a letra, perco em significados. O mais impressionante disso é a matéria musical ser "coerente" com a letra. Como é possível que algo "abstrato" tenha seus "significados" coerentes com a língua utilizada? Bem, podemos, num nível muito simplista, responder que, por exemplo, numa determinada canção, o trecho da letra que fala em abandono, sofrimento e solidão venha acompanhado de uma harmonia com acordes "tristes", "melancólicos", o que daria essa univocidade. No entanto, e em primeiro lugar, nem sempre isso acontece. Em segundo lugar, há muito mais sintonias entre a música e a letra do que essas correspondências mais óbvias. E, ao contrário da música puramente instrumental, a canção reforça sua carga emocional. Pelo menos, essa é minha experiência com ela.

Nas poucas vezes em que me emociono a ponto de ter lágrimas nos olhos, a causa principal é ter escutado canções, como algumas de Tom Jobim, por exemplo. Parece que a conjunção semântica entre letra e música me causa um impacto emocional muito maior. Embora eu sempre tenha preferido a música instrumental — como Pat Metheny, por exemplo -, só a canção me traz lágrimas. Da mesma forma, nenhum poema, que eu lembre, me emocionou dessa maneira. Alguns textos quase o fizeram, me impactaram e continuam me impactando, como os de Clarice Lispector. Pois bem, nem somente a poesia nem somente a música instrumental me comovem tanto quanto a união das duas, ou seja — no caso da música brasileira -, a canção. 

Uma das conseqüências, para mim, desse fato é que muitos autores de letras de música, no Brasil, são verdadeiros poetas, embora não sejam estudados ou valorizados como tal na "Literatura Brasileira". É o caso de Chico Buarque, Caetano Veloso, o próprio Tom Jobim e tantos outros.  Geralmente, só são valorizados como poetas os que tiveram essa face pública, ao lado do letrista de música, como é o caso de Vinicius de Morais, que publicou diversos livros de poemas. No entanto, a qualidade do texto deles é tão grande, a riqueza semântica, tão fascinante e abrangente, os temas tratados, tão essenciais e pungentes, que sua poesia é da melhor qualidade, por isso que acabo de dizer, e não exatamente pelo fato de emocionar. No entanto, pelo menos para mim, a emoção promovida pela canção brasileira não é fútil, superficial, mas, ao contrário, profunda e complexa, como pode nos emocionar um filme, por exemplo. Também vêm daí, com certeza, a enorme popularidade de certos compositores brasileiros, e a qualidade da música e da letra dessa conjunção feliz que faz com que, nesse caso, a alta qualidade da obra não descarte a emoção, mas a amplie.