O silêncio de Lu Pires

Je suis maître du silence.
Rimbaud

O lugar do silêncio: eis a esfera da dúvida inscrita em algo — numa matéria, placa ou corpo. Eis a marca de um limiar possível para a palavra quando, onde o tempo circula na espera de um gesto que possua a força de uma incisão. Tudo se concentra na mudez: a fala oblíqua. E uma voz que insiste em se materializar, em se encarnar como as mãos encarnam o gesto não repetido, o nome por trás do nome, o desejo contido no ataque. O desenlace é dentro do espaço de uma sala, ouvindo Clarice. A dúvida se esgota é na matéria ardendo, nas palavras de Clarice desviadas pelas mãos de Lu Pires, por sua ousadia de felino arranhando o silêncio no sofá. Dentro dessa sala, não sou surdo: escuto imagens. E a mancha da palavra sobre as coisas é como um vinho vermelho, uma labareda imprevista no meio da casa. Tudo tem um fim que não quero encontrar. Lu Pires empurra esse fim para adiante, lendo as palavras de Clarice como se fossem música.

(Outubro de 1998.)