O neutro

A partir de uma exposição de fotos de Helô Espada e Fábio Brüggemann.


O neutro é uma cintilação para dentro.

Não há ninguém por perto, é um momento de espera pura, em que se espia pelas persianas tensas, no escuro do instante.

Com exceção do espelho e sua indiferença desconfiada, nada perturba esse silêncio curto, denso como um aposento de Hopper.

Indecisão. É preciso resistir a sair, a encontrar a ausência de um vulto mudo pela realidade fora de hora, num tempo congelado pelo vazio de passos e de vozes.

É preciso fixar-se na iminência de um adeus à imagem, adeus à palavra, quando tudo que resta aceso é uma indiferença, uma cena granulada composta de solidão e abandono.

A cidade só.

No limiar que não se transpassa, à beira de uma janela ou de uma sacada, há uma dissolução de fatos, nenhum discurso se revela nesse oco da ação e do consumo, nessa lentidão de uma desluz oposta à velocidade com que se vêem as ruas apagadas e se procura um sentido que escapa como um feixe virtual.

Então, impera a ausência. Ninguém. Só eu, que espio pelas grades.

Lá fora é a guerra.

(Novembro de 2003.)