O desejo fugaz em Chico Buarque: “Bolero, Blues”

Bolero, blues

Quando eu ainda estava moço
Algum pressentimento
Me trazia volta e meia
Por aqui
Talvez à espera da garota
Que naquele tempo
Andava longe, muito longe
De existir
Tantos tristes fados eu compus
Quanto choro em vão, bolero, blues
Eis que do nada ela aparece
Com o vestido ao vento
Já tão desejada
Que não cabe em si

Neste crucial momento
Neste cruzamento
Se ela olhar para trás
É bem capaz de num lamento
Acudir ao meu olhar mendigo
Mas aquela ingrata corre
E a Barão da Torre e a Vinicius de Moraes
São de repente estranhas ruas
Sem o seu vestido ficam nuas
E ao vento eu digo
– tarde demais.

Quando ela já não mais garota
Der a meia-volta
Claro que não vou estar mais nem aí.

“Quando eu ainda estava moço...”. Assim começa a letra da música “Bolero blues”¹ , de Chico Buarque e Jorge Helder. Já no primeiro verso, aparece um deslocamento de sentido: o verbo “estava”, em vez de “era”. Como sempre, o poeta empurra o sentido para o lado e coloca outro, levemente diferente, às vezes imperceptível, mas que muda o significado. Na linguagem coloquial, se diz “quando eu era moço”, “quando eu for adulto”, usando o verbo ser. Chico Buarque o troca pelo verbo estar, aproveitando-se da diferença existente entre esses dois verbos na língua portuguesa, o que não se dá no inglês nem no francês, por exemplo. “Estava” indica algo efêmero, um estado passageiro, não perene. Digo: sou brasileiro, porque isso não mudará (mesmo que eu conseguisse outra nacionalidade, oficialmente). Do mesmo modo, sou do sexo masculino. Então, não digo “estou brasileiro” ou “estou homem”. Mas Chico escreve “quando eu estava moço”, o que acentua essa transitoriedade da existência. É claro que ninguém permanecerá jovem, mas Chico reforça essa idéia com o verbo estar, o que orienta o sentido total do poema para a fugacidade de tudo.

A letra continua: “Algum pressentimento/me trazia volta e meia/por aqui”. Outro deslocamento, outra duplicidade irônica de Chico: a expressão “volta e meia”, no sentido comum, significa “de vez em quando”. Mas, pensando espacialmente, para voltar ao mesmo lugar eu preciso dar uma volta – por exemplo, uma volta na quadra. Se dou uma volta e meia, não volto exatamente ao mesmo lugar onde eu estava. Então, à regularidade da volta soma-se à irregularidade do ponto de chegada. Em outros termos: se não há coincidência temporal (depois da volta, o que era presente já é passado), tampouco há coincidência espacial: não se volta nunca ao mesmo lugar.

Como se não bastassem essas duas fugacidades – a do tempo e a do espaço –, há ainda uma terceira: a do objeto do desejo. Segue o poema: “Talvez à espera da garota/que naquele tempo/andava longe, muito longe/de existir”. Ora, aqui há vários deslocamentos. A garota, objeto do desejo, estava longe – o espaço afastando o objeto. Mas também andava longe “de existir” – o tempo afastando o objeto. Para embaralhar mais ainda a idéia, o verbo “andar”, aqui, agora em vez de “estar”, também sugere, sim, a existência da garota, pois ela “andava”, assim como o sujeito do poema anda dando “voltas” pelas ruas. Chico vai construindo a noção de um labirinto espacial, temporal e do desejo: tudo dentro de uma fugacidade, movendo-se constantemente, sem ponto fixo, sem apoio. A existência, cuja base é o desejo, não se ancora em nada. Para completar, a distância da existência da garota sugere que ela ainda não nasceu. Portanto, há uma diferença de idade entre o sujeito poético e seu objeto do desejo, além de uma clara indicação da quase impossibilidade de um encontro: a imagem do desejo como algo utópico (do grego u topos = o que não tem lugar). E mais: o desejo como pura imagem, pois se a garota ainda não existe, o objeto do desejo do sujeito do poema é uma miragem.

“Tantos tristes fados eu compus/quanto choro em vão, bolero, blues”. Além de, novamente, ironizar com um duplo sentido em “choro em vão” (pranto e chorinho – estilo musical), Chico Buarque apresenta nesses versos a conseqüência daquele labirinto existencial em que o desejo é fugaz, em que tudo é passageiro: a criação. Para defrontar-se com a fugacidade de tudo, o sujeito cria, compõe. Eis aí uma definição do artista: o registro criativo, vivo e que viverá no tempo, tanto o poema quanto a música, enquanto o artista morrerá. Arte longa, vida breve, tema já da Antigüidade grega.

Mas, então, uma surpresa que risca a brancura dessa existência: “Eis que do nada ela aparece/com o vestido ao vento/já tão desejada/que não cabe em si”. Ora, essa “aparição” do nada parece mesmo não existir, como um fantasma (o do desejo), tão inapreensível quanto o vento, que por ser tão desejada – a imagem de um desejo – “não cabe em si”: o desejo é maior do que seu objeto. Por outro lado, cabe pensar que a “aparição” do objeto do desejo é fruto da própria criação, do fato de o sujeito compor canções.

“Neste crucial momento/neste cruzamento/se ela olhar para trás/é bem capaz de num lamento/acudir ao meu olhar mendigo.” Crucial momento é um instante não só decisivo, mas em forma de cruz: cruzamento de perspectivas, de possibilidades, cruzamento espacial (as ruas), cruzamento temporal (ele que existia, ela que ainda não, mas aparece), e ainda, talvez, possamos pensar essa fugacidade do desejo como uma cruz a ser carregada, como nossa condição inexorável. O objeto do desejo é sempre inalcançável, está sempre à nossa frente (“se ela olhar para trás”). E aí, nesse ponto, há um possível encontro entre essas existências equívocas: o lamento e o olhar mendigo. Mas há uma nova confusão provocada por Chico Buarque: é ela que traz um lamento, não ele. Então, ela também possui a falta? Ela também lamenta um desejo não satisfeito, uma vida inconclusa? Sim, talvez ela também, pois é a condição humana, na qual todos somos mendigos, quer dizer, estamos sempre pedindo, à espera de uma resposta... Em todo caso, se ela é apenas a miragem do seu desejo, se explica que ele espere dela um “lamento” que corresponda ao seu “olhar mendigo”. Note-se que Chico fala exatamente de um “olhar”: efeito de uma imagem.

“Mas...”, pois tudo é mesmo fugaz, “aquela ingrata corre/E a Barão da Torre e a Vinicius de Moraes/são de repente estranhas ruas/sem o seu vestido ficam nuas/e ao vento eu digo/ – tarde demais.” Encontro desfeito. Se a imagem do objeto do desejo se desfaz, e se esse desejo é o que nos constitui e forja nossa própria visão das coisas, o mundo ao nosso redor também se esvai, pois tudo é uma mesma imagem. As ruas ficam irreconhecíveis. Tão inextricável é a trama que envolve tudo a uma só vez – o sujeito, o objeto do desejo e o mundo –, que novamente as coisas se embaralham, e são as ruas que ficam nuas sem o vestido dela, e, na verdade, é ele quem fica nu, desamparado, dialogando com o vento... Esse redemoinho sempre joga os fatos para trás e o desejo, novamente, para a frente. “Tarde demais.”

Então, já não haverá mais a possibilidade de um encontro. Pois, “quando ela já não mais garota/der a meia-volta/claro que não vou estar mais nem aí”. Num futuro qualquer, quando a garota for mais velha, o sujeito – que já a antevia antes de ela existir – não mais existirá (“não vou mais estar [...] aí”). Mas – nova ironia de Chico –, se ele estiver, não a terá mais como objeto do desejo: “não vou estar mais nem aí”, pois o desejo sempre permanece, mas seu objeto vai mudando: perenidade do desejo, fugacidade do objeto. Esse desencontro é marcado pela “meia-volta”: de novo, pensando espacialmente, se ela der apenas uma “meia-volta” (e não uma volta inteira), jamais ela retornará ao mesmo ponto. Impossibilidade de encontro: ele dava “volta e meia”, e ela, somente “meia-volta”... Andando em círculos (o círculo fechado do desejo e sua falta), os dois se desencontram.

Se atentarmos para os sons do poema, veremos que há uma “rima” entre “pressentimento” e “tempo”, na primeira estrofe, e “momento/cruzamento/lamento”, na segunda. De certo modo, a antevisão da garota – esse fantasma – já é, ao mesmo tempo, a antevisão do fracasso do encontro. A repetição de sons em “i” (“existir”/”vestido”/”si”) conecta a idéia do ser à noção de aparência, que o cobre (o “vestido”) – tema tão conhecido da Filosofia: o ser como mera aparência, o outro como mero desejo ou imagem de um desejo... Um ser que imaginamos, que buscamos, mas que talvez nunca – como o fantasma – se materialize. Um ser que nunca esteja “aí”: não se apresenta jamais para nós e também nos lança um desdém (ele também “não está nem aí”...).

Por fim, o último verso: “Claro que não vou estar mais nem aí” faz referência – circular, por certo – ao primeiro: os dois usar o verbo estar. Ora, se no primeiro verso esse verbo indica a fugacidade (estar em vez de ser), no último ele aponta para a efemeridade, a precariedade: não estar mais, agora no sentido muito mais forte de não ser mais, ou seja: não mais existir. A morte vem antes da consecução do desejo? Sempre... Mas resta a arte, resta a canção, que é uma forma de deixar uma marca desse desejo e oferecê-lo ao público, entregá-lo a nós, e quem sabe, nesse compartilhamento, talvez possamos nos sentir menos sós.

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1 “Bolero blues”. Música de Jorge Helder e letra de Chico Buarque (BRPUI–06–00047. Nossa Música Produções e Edições Musicais Ltda./Marola Edições Musicais Ltda.) No disco “Carioca”. Biscoito Fino, 2006.