Nietzsche na Bíblia

Há dois textos que me parecem dos mais instigantes e sábios que já li sobre a condição humana. Inteligentes e com uma forma que sempre me surpreende. "A criação e a queda" — a primeira parte do Gênesis — e o "Eclesiastes", ambos da Bíblia, são alguns dos textos que eu recuperaria para uma antologia das melhores coisas já escritas.

O Gênesis tece uma ficção belíssima sobre o ser, fazendo uma oposição entre a inocência e a consciência. A consciência das coisas só se revela no ato digestivo: as palavras saber e sabor têm a mesma raiz — daí a idéia antropofágica de Oswald de Andrade: "comer o Outro" significa aprender. No Gênesis, o conhecimento é simbolizado pelos frutos à disposição do homem e da mulher, em especial os de duas árvores: "a árvore da vida" e "a árvore do conhecimento do bem e do mal" . Esta última é, sem dúvida, a mais importante: o fruto dessa árvore proporciona um saber ambicioso: o bem e o mal, ou seja: tudo! A complexidade da vida e suas armadilhas.

A figura de Deus aparece como o Pai repressor, a base de toda a civilização. Já na primeira coisa que Deus diz a Adão, há uma interdição: "Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer". Ora, mas é óbvio! Ou Adão acreditava na eternidade? Acreditava, porque era inocente. A aquisição desse doloroso conhecimento — essa fruta amarga -do bem e do mal, a consciência de que a vida não é um "paraíso" e de que nós todos, afinal de contas, somos mortais estava vedada a Adão. Se ele conhecesse a vida em sua integridade, se soubesse que a condição humana não é a felicidade, mas o conflito, perderia a inocência, a nudez. Mas Deus o ameaça porque, se o Homem adquire essa consciência, a figura divina passa a ser supérflua. Mas Deus cria a mulher, e então perde o controle sobre Adão. Pois se a vida é homem e mulher, e não só o mundo masculino, então também a vida não é só inocência. E é muito interessante que quem se arrisca ao conhecimento, à tomada de consciência, é justamente a mulher: Eva.

O Gênesis fala que "a serpente era o mais astuto dos animais", ou seja, já não era inocente. Então, é a serpente quem desmascara Deus. Ela denuncia a Adão e Eva que Deus está blefando. Se Deus ameaçou-os dizendo que, se comessem o fruto do conhecimento, morreriam, a serpente, ao contrário, afirmou: "Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele [o fruto do conhecimento do bem e do mal] comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal".

Ora, a tomada de consciência, portanto, nos iguala a Deus! Só somos inferiores a ele se formos inocentes. Mas a consciência nos coloca ao lado dele, ou seja: já não há mais "espírito superior", etc. Já não há deuses! Somos nós, sozinhos no mundo, sem promessa nenhuma: esse é o preço a pagar pela consciência.

E o ser humano é curioso e paga o preço. "A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que essa árvore era desejável para adquirir discernimento." Grande Eva, que teve a coragem de pagar pra ver! O ser humano adquire a consciência através da mulher. E, então, passa a saber que o "paraíso" não existe. Existe a vida como ela é, cheia de hostilidades, na qual somos mortais, e onde Deus só serve para os inocentes.

Parece um texto escrito por Nietzsche!

Já o Eclesiastes, ao analisar essa mesma vida, a vida humana fora de todo paraíso, afirma: "Examinei todas as obras que se fazem debaixo do Sol. Pois bem, tudo é vaidade e correr atrás do vento!". Que terrível "futuro" nos espera... Mas, e o trabalho da humanidade, seu esforço para que a vida seja algo diferente?  Diz o texto:

Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do Sol? Uma geração vai, uma geração vem, e a terra sempre permanece. O Sol se levanta, o Sol se deita, apressando-se a voltar ao seu lugar, e é lá que ele se levanta. O vento sopra em direção ao sul, gira para o norte, e girando e girando vai o vento em suas voltas. Todos os rios correm para o mar e, contudo, o mar nunca se enche: embora chegando ao fim do seu percurso, os rios continuam a correr. Toda palavra é enfadonha, e ninguém é capaz de explicá-la.

Mas, se nada vai tornar essa vida um "paraíso", não nos restaria pelo menos a curiosidade de investigá-la? Não nos restaria a cultura?

Diz o Eclesiastes:

Coloquei todo o coração em investigar e em explorar com a sabedoria tudo o que se faz debaixo do sol. É uma tarefa ingrata que Deus deu aos homens para com ela se atarefarem. Examinei todas as obras que se fazem debaixo do sol. Pois bem, tudo é vaidade e correr atrás do vento!

Mas ainda podemos pensar que, se nossa "sabedoria" não serve para nada, pelo menos temos a chance, diante dessas impossibilidades, tornar a vida possível, ou seja, vivermos dentro de espaços de "pequenas felicidades", já que a "Felicidade" não existe. E o que nos diz o Eclesiastes? "Eu disse a mim mesmo: Pois bem, eu te farei experimentar a alegria e conhecer a felicidade! Mas também isso é vaidade. Do riso, eu disse: 'Tolice', e da alegria: 'Para que serve?"

O Eclesiastes termina sendo um texto hedonista, aferrado ao prazer imediato, já que, para lá do instante, "tudo é vaidade". Por isso, o texto diz: "E eu exalto a alegria, pois não existe felicidade para o homem debaixo do Sol, a não ser o comer, o beber e o alegrar-se; é isso que o acompanha no seu trabalho nos dias da vida que Deus lhe dá debaixo do Sol."     Aos "cientistas" de toda a espécie, o Eclesiastes dá o recado:

Observei toda a obra de Deus, e vi que o homem não é capaz de descobrir toda a obra que se realiza debaixo do Sol; por mais que o homem trabalhe pesquisando, não a descobrirá. E mesmo que um sábio diga que conhece, nem por isso é capaz de descobrir.

E para acabar com qualquer discussão sobre a "natureza humana" e sua possibilidade para o "bem", o Eclesiastes dispara: "Este é o mal que existe em tudo o que se faz debaixo do Sol: o mesmo destino cabe a todos. O coração dos homens está cheio de maldade; enquanto vivem, seu coração está cheio de tolice, e seu fim é junto aos mortos".

Paro por aqui.

(Publicado no jornal A Notícia, 1996.)