Maurício Muniz: uma arte "menor"

Qual é a "obra" de Maurício Muniz? Aparentemente, nenhuma. Desenhos, quadrinhos, pinturas, luminárias, projetos de cadeiras e brinquedos, logotipos, cartazes, estampas, esculturas... Há um salto vertiginoso de uma esfera para outra, sem fronteiras. Maurício Muniz não é "artista plástico" por excelência nem "publicitário"; nem "artesão".

Um primeiro olhar o aproxima de Picasso. Em ambos, há uma vitalidade; mas o que move o desejo pela prática com todos esses materiais vem de mais fundo, dessa zona onde todo o esboço se esfumaça e os rótulos são inúteis.

Em Maurício Muniz, esse trabalho é vital porque move: move o corpo de sua inércia cotidiana; move a arte para misturar-se com a vida prática; move o bidimensional para tornar-se concreto; move o gesto para incorporar-se a uma matéria. E Maurício não pára: Medicina, Arquitetura, Publicidade, Pintura, Cenografia... Ele jamais freqüentou um curso de desenho, mas domina-o como alguém domina a arte de pescar ou como um luthier conhece o segredo virtual de um violino.

Esse movimento é vital porque ligado ao corpo: seus desenhos falam de corpos em movimento, seu trabalho publicitário tem como alvo o corpo do outro, seus objetos utilitários pedem o toque, o descanso ou o movimento, suas pinturas exigem um gesto que contém a força de uma expressão que não quer se reprimir.

E é essa espécie de vitalidade que o afasta de Picasso. Seu trabalho pretende se incorporar ao outro como quem doa: o conceito de arte se esvanece. Daí também que a atividade de Maurício, embora privada, tenda ao público: cartazes, outdoors, brinquedos ao ar livre, esculturas, móveis, camisetas, pinturas de grandes dimensões, cenários. Mas sem pedagogia: Maurício não quer ensinar nada (nem mostrar um "domínio" aprendido em alguma escola). Seu gesto simplesmente se divide com o outro, tal como o arquiteto o divide com o público anônimo.

Nesse sentido, há uma coerência. Maurício Muniz parte do desenho para, a um dado momento, criar volumes. O corpo pede a concreção de um desejo: é a época das "esculturas inacabadas", gestos materializando-se através de materiais, sem um resultado "utilitário" ou "artístico". Mais tarde, quando trata de "acabar" as obras, Maurício também joga com os dois conceitos: luminárias (utilitárias) e esculturas (artísticas). Mas, para ele, rotulá-las é o que menos importa.

Daí também outra linha de coerência que o aproxima de Marcel Duchamp, mas pelo avesso. Duchamp abandonou a "Arte" para realizar ações que não se adequavam ao mercado. Mesmo assim, seu gesto acabou tragado pelas instituições como um "artístico", alheio à indiferença que o próprio autor exigia diante de seu trabalho. Para Maurício Muniz, não há nem essa pretensão. Seu gesto simplesmente se instala como necessidade do sujeito, sem projetos ou silêncios significativos. Se, para Duchamp, o silêncio é um desafio à obra de arte, para Maurício também esse desafio é ingênuo: criando ou silenciando, a instituição "Arte" mantém suas armadilhas: o que Maurício Muniz ataca é a seriedade da arte.

Muniz traz seu gesto à tona, decepciona o crítico e instala uma vertigem: o que ele exige é o olhar e a fruição direta, mas não sejamos ingênuos: seu trabalho está marcado por uma coerência extremamente forte.

Se seus produtos "utilitários" e "publicitários" revelam uma inclinação para o público, suas pinturas frustram qualquer olhar comum: elas são puramente abstratas, e parte importante delas é o gesto de pintá-las, o que exige do olhar a cumplicidade de arriscar-se na importância dada ao gesto, muitas vezes oculto por trás dos "conceitos" e hábitos.

Por isso, Maurício mal se adapta ao mercado. Embora algo se destine a ele, é como estímulo à própria produção e, principalmente, uma forma de entrar não no circuito "artístico", mas no cotidiano.

Cuidado com o rótulo "marginal": esse seria mais um projeto, o de construir uma obra disposta a não participar nem da instituição Arte, nem do mercado, nem do gosto do público. Maurício Muniz se diverte com esses rótulos construindo uma trajetória que, embora séria, não deixa jamais de ser lúdica. Compartilha com um público, transita pelo cotidiano, participa eventualmente do mercado. A marginalidade não se "constrói": ou ela ocorre ou será uma farsa. O pouco respeito que Maurício dedica à Arte, ao Mercado, à Crítica revela, sim, uma marginalidade irônica: o que resta ao sujeito é não se deixar corromper.

Maurício imagina objetos o tempo inteiro. Poucos deles se integram à vida real. Mas esse exercício já é suficiente. O artista solitário é aquele que, dizendo muito, sabe que não há diálogo, como Van Gogh sabia de sua inacessibilidade. E se poucas criações de Muniz chegaram a alguém, quantas terão realmente tocado o desejo do Outro?

Maurício tem um desafio: acreditar na própria obra. A sobrevivência de seu trabalho é tão importante quanto a do corpo, do desejo, da voz que rompe o silêncio. O que ele faz é acenar: "Adeus às Artes".

Desse aceno, nasce a possibilidade de algo fora da Arte: simplesmente arte — que, no tempo dos gregos, se associava ao fazer para não parar, para não morrer.