Literatura Catarinense: para que serve?

Há alguns anos, houve no curso de Letras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) a proposta de retirar a disciplina “Literatura Catarinense” do currículo. Muitos se posicionaram contra esse “absurdo”, houve polêmicas, e depois não sei qual foi, afinal, a decisão da UFSC. Na verdade, não sou contra a saída da “Literatura Catarinense”, como disciplina, de um currículo de Letras. No entanto, tampouco sou a favor de ignorá-la totalmente. Em todo caso, depende do que se entende por “catarinense”.

Na esteira do nacionalismo, que exerce no Brasil um fascínio e uma hegemonia ideológica massacrante, tudo o que é “brasileiro” passa por relevante. Trata-se de uma espécie de fascismo da identidade, quer dizer, o adjetivo “brasileiro” comportaria, por si só, uma “essência”, que ninguém sabe definir qual é, mas que se defende como se fosse sinônimo de qualidade. Na realidade, esse viés ideológico, que vem lá do liberalismo burguês, esconde um projeto que interessa ao poder, que é o de imaginar e fazer crer que somos todos uma “grande família” com interesses comuns, quando no fundo somos um país capitalista marcado pela existência de classes sociais e desigualdades ferozes. Ser “brasileiro”, nesse caso, não significa nada. Posso detectar algumas características que eu identificaria como sendo da população brasileira, em comparação com outra população, digamos, argentina ou sueca. Mas essas características, se forem verdadeiras, não têm a ver com alguma “essência” ou qualidade. Inclusive, algumas delas, penso que são francamente negativas. Quanto a me imaginar fazendo parte de uma “grande família”, nada mais falso. Não compartilho os valores de muita gente, da burguesia ou não, não tenho nada a ver com uma série de características ideológicas da população. Enfim, ser “brasileiro”, para mim, não diz muito, mas é pretexto para ganhar muitos lucros, como a participação do Brasil na Copa do Mundo, por exemplo.

Ora, ser “catarinense” esbarra no mesmo problema. Considerar uma “literatura catarinense” como algo relevante esconde uma falsa “essência”. Qual o objetivo, então, de estudar essa literatura?

Se for sob o viés desse nacionalismo ou “bairrismo”, tanto faz, o conceito de “literatura catarinense” é um engodo, não há a menor razão de existir. Entretanto, pode-se estudar a literatura escrita em Santa Catarina como um hábito que, advindo do nacionalismo ou do “estadismo”, se tornou uma inércia. Um pouco fechados em si mesmos, sem muitos contatos nem muita circulação nas principais regiões editoriais ou leitoras do País, os escritores que vivem em Santa Catarina seriam estudados nas instituições do Estado (universidades e escolas) por estarem mais próximos. Assim, se estamos neste Estado, estudamos, lemos os escritores que aqui vivem, onde, talvez, possamos encontrar seus livros, até conhecê-los pessoalmente numa palestra, etc. Além disso, se não existe propriamente uma “essência” brasileira ou catarinense, qual a diferença em ler uma ou outra? Nesse caso, tanto faz que num curso de Letras se estude um autor “brasileiro” ou “catarinense”. No entanto, é lógico que esse hábito é herdeiro daquela noção nacionalista. Desse ponto de vista, retirar a disciplina “Literatura Catarinense” do currículo não me parece nada absurdo, desde que também, por conseqüência lógica, se retire a disciplina “Literatura Brasileira”.

No meu entender, devem-se ler e estudar aqueles autores que se destacam por sua qualidade, sua complexidade, seus modos inusitados de ver o mundo. Bastaria que existisse num curso de Letras a matéria “Literatura em Língua Portuguesa”, e aí entrariam os brasileiros, os portugueses, os angolanos. E se algum escritor que vive em Santa Catarina seja importante aos olhos de quem criar o currículo, pois bem, que ele faça parte da matéria tanto quanto Machado de Assis ou Guimarães Rosa. É claro que esse critério seria discutível. Mas, pelo menos, seria mais honesto.