José Kinceler e o lobo partindo do templo

Que se riam de suas paixões. Porque o que consideram paixões, na realidade, não é energia espiritual, mas apenas uma fricção entre a alma e o mundo. O mais importante é que acreditem em si próprios e se tornem indefesos como crianças. Porque a fraqueza é grande, e a força é fútil.

Quando a pessoa nasce, é fraca e flexível. Quando morre, é forte e dura. A dureza e a força são acompanhantes da morte. A flexibilidade e a fraqueza são a frescura do ser. Por isso, quem se tornar duro não vencerá.

(Stalker, filme de Andrei Tarkovski)


Quando o poeta Bashô saiu em viagem a pé e a cavalo pelo Japão, comentou que os presentes que todos queriam lhe dar eram um estorvo. O poeta queria partir só, sem peso, e encontrar a leveza das coisas.

Para Italo Calvino, a leveza deve impregnar também a própria linguagem, mas com um contraponto: um certo peso do controle sobre a matéria poética. E lembra Valéry: "É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma".

É precisamente por exercer o domínio sobre a matéria que José Kinceler optou por abandoná-lo. Ao rejeitar a fundição como uma simples etapa de um processo, e ao questionar a escultura como uma mera cópia de um molde, Kinceler abraça o acaso. Nesse lance de dardos, ele não sabe do alvo, mas aposta no vôo delicado da flecha. E encontra, no silêncio da matéria descansando, o mineral transformado em folhas, águas, reino vegetal.

Kinceler derrete o metal para torná-lo maleável em sua tessitura de fogo. E daí parte para a concreção de um ser tocado pela incerteza do ramo, pelo acaso da pétala, pela leveza da luz. Do fogo — o lobo dos templos para os guerreiros da antiga Islândia -, surgem anjos tingidos de ouro e fuligem, como na iminência de caírem mais uma vez ou voarem rumo ao desconhecido.

No dizer de Manoel de Barros, o poeta fode a pedra. Kinceler entrevê, no manuseio explícito da dureza do metal, um acesso à abertura das coisas em sua entrega fugaz, ríspida, para encontrar aí um ser sendo nas coisas, ser ex-, antes que tudo se endureça.

Vergar a dureza para apostar na dobra, na leveza da pele.

Kinceler não esculpe: tece.

(Novembro de 1995.)