Janos Erzinger, viajante

As Maldivas são 1.196 ilhas sobre atóis de coral no Oceano Índico, perto da Índia e do Sri-Lanka. Apenas 200 delas são habitáveis. Male, a capital de Maldivas, tem só 55 mil habitantes. O mar é belíssimo — verde e transparente -, e, obviamente, há muitos peixes e frutos do mar. Não me pergunte se esse lugar paradisíaco realmente existe: eu não saberia o que responder. Sei que esta ilha onde vivo existe para mim: o resto é ausência — e desejo. Um lugar fascinante, mágico, é a Terra do Fogo: nunca estive lá. Janos Erzinger esteve em Male-Maldivas — não há como contestar. Vejam suas aquarelas: é como se a ausência se construísse sobre sua própria falta para materializar um desejo, uma viagem, recuperar não o que se perdeu, mas o que não há. E se essa espera cotidiana que se arrasta e que uns chamam vida é real, não há mais nada a fazer a não ser escapar. Reconheçamos: tudo parece uma ficção. Olhe à sua volta: há um excesso de absurdos! Fernando Pessoa escreveu: "Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real". A única maneira é a viagem que se desenha sobre um papel em branco, que nos arranca da vida "real" para nos lançar tão longe que nem uma passagem de avião resolve. A arte nos atira para nós mesmos. Fernando Pessoa tinha razão: as aquarelas de Janos são poemas.

(Ushuaia, Terra do Fogo, julho de 1994.)