Gatos: pequeno dicionário poético (fragmentos)

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Abandono

O gatinho mia. Seus olhos estão arregalados. Seu pêlo, frio. Tem muita poeira no corpo, e um ruído ininterrupto e irritante de dentro de si, mas não é um ronronar: é que ele não come. Quando avança uns passos, passa um carro rápido e aterrador. O gatinho recua. Pessoas transitam por ali, faz frio, cachorros ameaçam a distância, e nada convida a um aconchego. Ele mia outra vez. E mais. É quase um grito sua solidão aguçada pela sede, o mal-dormir, a ausência da mãe, os perigos da rua. Esse mundo não é para o pequeno e magro felino. E assim, com olhos tristes e sujos, ele percebe a sociedade dos seres humanos. E mia alto. Até que, do nada, de alguma espera do outro lado da vida, da rua ou da esperança, um outro solitário se aproxima. E duas mãos mornas e fortes acolhem o gatinho, que fita essa pessoa espantado, incrédulo, mas, afinal, feliz.


Acordar

O gato está dormindo há horas, mudando lentamente de posição de vez em quando, acumulando camadas de sono. De repente, um barulho forte e agudo o faz abrir os olhos e retesar o corpo como se estivesse totalmente desperto — e está. Noutras vezes, o dono passeia pela casa, ouve música, conversa ao telefone, e o felino nem pisca, derrotado pelos sonhos, até que, chegando a noite, ele vai abrindo os olhos devagar, observa o ambiente tranqüilo, respira fundo e, mexendo os olhos, começa a perceber o movimento dos primeiros insetos. E há aquelas vezes em que o dono, vendo-o dormir, senta ao seu lado, não resiste e estende a mão até o pescoço do gato, por baixo das orelhas, e mansamente afaga o pêlo de seda. O gato abre os olhos, vê quem é que está ali, então se espreguiça completamente, suspira e volta a fechar os olhos, sonhando acordado.


Água

Chove. O parapeito-observatório está úmido. Uma janela foi fechada. Há um ruído ininterrupto no telhado, e as calhas recolhem a profusão de águas e pequenas folhas, jogando-as nas lajes ao redor da casa. Uma porta se abre para o quintal. O gato espreita. O cheiro de terra lavada e restos de plantas chega ao seu focinho. Seus bigodes se antenam. Tudo lá fora mostra um movimento intenso. Ele estende uma pata e toca o piso frio. Depois, outra. Meio corpo já está no pátio, investigando a densidade da chuva e seus limites. Então, ele arrisca e salta para o jardim. Imediatamente, tem um choque. Suas patas afundam num musgo líquido e gelado, pingos-agulhas caem sobre seu dorso, o mundo respinga pontos úmidos cobrindo tudo, e o gato dispara de volta para a proteção da porta. Ali, estende uma pata e sacode-a, nervoso, até que a última gota atrevida se desprenda de suas garras. Depois, vai tremendo as outras patas, num balé desengonçado e rápido destinado a recuperar a secura do pêlo. A calma volta à expressão do felino, e então sua língua começa o longo trabalho de tornar seu corpo enxuto novamente. Ele olha com olhos tristes e amarelos para a rua. O mundo e suas chuvas não dão trégua. Nisso, a dona aparece à porta, e o pequeno felino, indignado, lança seu miado em que, ao mesmo tempo, apresenta a sua injúria ao tempo e pede, cabeça baixa, o afago manso — e seco — daquela que o protege da ira das águas.