Cinema para quê?

Num meio cultural pobre, onde a maioria dos artistas e escritores está bem adequada ao mundo, um produto cultural medíocre pode passar por uma "obra de arte", principalmente quando a "ideologia" de todos for a mesma. Quando todos acreditam no futuro ou na arte "para o povo", ou simplesmente defendem que a arte tenha como finalidade "conscientizar", mesmo algo vindo do mais descarado oportunismo é de agrado entre gente "de esquerda".

Agora, andam de moda os filmes e romances "históricos". Faz-se um filme dizendo o que todo mundo já sabe e todos dizem: "Ah! Que filme sério". Como crêem no "iluminismo" da educação, apostam no já-visto, no mesmo -assim como a TV aposta no mesmo, e os best-sellers, e os filmes comerciais. (Não é ironia que um campeão de bilheterias como Spielberg tenha feito um filme sobre o nazismo — tudo o que já se sabe vira produto para as massas).

Essa espécie de manipulação é pior quando se disfarça de "crítica", "de esquerda", etc. Por atingir o público e ser "politicamente correta", agrada a todos. Um filme de algum oportunista de direita facilmente se traveste de conteúdo "crítico" quando for fácil ganhar prêmios.

Só os artistas verdadeiros escapam dessa mistificação populista e afirmam a marginalidade de um antidiscurso, de uma postura que não acredita no social. A arte mais crítica é aquela que discute o outro lado, não o mesmo, sendo essa sua condição de marginal, de anti-social. A verdadeira arte não se vende a populismos de esquerda — e muito menos a oportunismos de direita disfarçados e apropriadores de discursos "críticos". O artista que explora um assunto político-social como meio de ganhar notoriedade e público é um impostor de plantão. A arte crítica está muito além disso, pois recusa a mediocridade da unanimidade. E o artista sério acredita, com Tarkovski, que: "É óbvio que a arte não ensina nada a ninguém, pois em 4 mil anos de arte a humanidade não aprendeu absolutamente nada". Quem acha que isso é um beco sem saída acertou: só acredita em saídas quem subscreve a política, o populismo da ação e do discurso. A verdadeira arte aponta sempre para o abismo — do sentido da história e da própria arte.