A provocação de Neno Brazil

Quando Neno Brazil realiza uma "instalação" como o "Ensaio Cínico Sobre as Medidas", o que instala, na verdade, é uma provocação: um olhar para além das medidas da "obra", do museu e do círculo das artes plásticas. Tudo tem seu lado cínico: na instalação de Neno Brasil, o cinismo vai da Filosofia aos fios que seguravam parte da instalação e que, não raro, eram atropelados por espectadores — quase tele, de tão distraídos.

O trabalho consiste numa pirâmide virtual cujo vértice é a mão de Diógenes levando um lampião aceso, e a base é uma camada de fuligem no chão, definindo a "sombra" provocada por um pano pintado e suspenso horizontalmente por fios. No pano, a idéia de um mapa, embora sem nenhuma orientação precisa, nenhuma imagem segura. Sob ele, no solo, uma pedra com uma cavidade contendo água.

Assim, Neno Brazil constrói uma simetria que também é simbólica: o fogo no alto se corresponde com a fuligem (seu produto); a busca, representada pela mão de Diógenes, se relaciona com o mapa — ambas as correspondências traçadas sobre o escuro de uma busca sem bússola. O solo também aponta para o céu, e a luz do lampião alude à escuridão que nos envolve.

Mas toda essa simetria é interceptada, digamos assim, pelo próprio pano, que corta a pirâmide ao meio; além disso, aos elementos mais vinculados à vida e à natureza (a mão, o fogo — e o cheiro do lampião queimando que se espalhava pelo museu, a fuligem) se opõem materiais abertamente artificiais, do âmbito da arte: a tinta com que o pano foi pintado, o próprio pano, os fios suspensos. Aquela simetria inicial, portanto, foi problematizada: há a pedra (no meio do caminho?), que, com a água parada, dá um tom de imobilidade que bloqueia a busca, mas também de essencialidade que, aliada aos outros elementos (água, fogo, ar), compõem uma totalidade, assim como a pirâmide.

O que Neno Brazil parece desenhar, então, é uma partitura totalizante, que persegue um círculo pleno, no qual elementos artificiais se unem aos naturais, onde a arte se une à vida, e alguma luz desfaça as trevas cínicas que teimam em se abater sobre nós — dentro e fora da arte. Daí a figura de Diógenes ("procuro um homem digno") pairando sobre os espectadores, inclusive sobre os que tropeçavam na obra, como a indicar que a arte se intromete, como pedra, no caminho da vida, para provocar um tropeço, um abalo, despertando para o instante. Desviando-se de uma estética do "belo" — imagens destinadas a confortar o olhar e quem quer ver o já visto -, Neno trabalha no sentido da surpresa e da reflexão, que transcende a mistificação de uma certa "arte conceitual" (que necessita "explicar" a "obra"...) para apresentar, artisticamente, uma revolta.

É esse gesto, essa mímica fugaz movendo o nosso olhar para além das telas oficiais — as do mercado e as da TV -, que me faz querer também assumir o risco de ser cínico, quando se trata de sonhar com aquilo que não vejo, mas que espreita, erótico, pelas frestas de um dia obscuro.

(Abril de 1994.)