A Literatura Brasileira Contemporânea e a sedução da “realidade”

Fernando Pessoa escreveu que a literatura existe para “tornar a vida real”. Se observarmos o estado das coisas no mundo de hoje – mas também se investigarmos a história –, chegaremos à conclusão de que a vida realmente é um absurdo, como afirmou Albert Camus. Quem quer que tenha lido um mínimo de livros sobre a chamada “realidade” ou a história e observado com argúcia os acontecimentos contemporâneos a si tem a impressão de que tudo é “irreal”. Inclino-me a pensar, mesmo, que os fatos são sempre repetitivos, as notícias são as mesmas circulando indefinidamente, vendendo versões do mundo e lucrando muitíssimo com isso, um excelente passatempo para quem não quer ou não tem a coragem de admitir que toda essa “realidade”, na verdade, é falsa.

Todas as questões pertinentes ao ser humano em suas dimensões mais complexas estão ausentes da “realidade”. Os “fatos”, as “notícias”, em sua insipidez rápida e cortante, não explicam nada, não elaboram nada, são faíscas que tornam a vida efêmera e as horas vazias. Não há absolutamente nenhuma reflexão relevante na massa de fragmentos veiculados pela mídia. Se isso é a “realidade”, ela não vale nada.

Entretanto, essas questões complexas e enriquecedoras sobre o mundo, sobre nós mesmos e nossas relações, se encontram na literatura, no cinema, nas artes plásticas... Enfim, na arte. Por isso, ao afastar-se da chamada “realidade”, que é demasiado pobre de conteúdo, a arte se aproxima mais das pessoas, do imenso mundo em que habitam, não o mundo das ruas, mas o mais misterioso e denso de todos: o de si mesmas. Além disso, ao enfrentar essas dimensões, a arte pode se ligar, sim, à realidade mais crua, a das ruas, das cidades, dos campos, dos países, da exploração e da miséria, mas de uma forma infinitamente mais rica, esclarecedora e impactante que qualquer jornal, revista ou TV. Assim acontece na literatura, que, quando é de qualidade, envolve a chamada “realidade” numa ampla reflexão sobre a condição humana.

Ora, ultimamente, anda de moda outra vez (a velhice e a mesmice da “novidade”...) uma literatura, no Brasil, “voltada à realidade”. Essa literatura, que não aprendeu nada com a literatura de verdade, complexa e densa, rica e desafiadora, nem com a melhor arte, pretende tratar da “realidade”, mas não aquela misteriosa da qual a mídia foge, mas exatamente a da veiculada pela mídia, compondo com esta um “adendo”, produzindo livros que repetem o que os jornais já disseram, mas num formato de romance ou conto, numa espécie de tautologia literária que, por certo, vende bem: não é por acaso que toda uma série de livros nessa linha vêm sendo publicados por editoras importantes para um público ávido pelas mesquinharias e pela violência do Brasil atual, coisa que já vêem todo o dia na TV. O mesmo ocorre com certo cinema nacional.

No entanto, essa literatura reforça a irrealidade da “realidade”, pois é superficial, plana e pobre de conteúdo. O mundo, através desses livros, parece apenas uma sucessão de acontecimentos banais e desprezíveis, mas cheios de “ação” e “emoção”, um ótimo passatempo, daí a massa de leitores que os compram. Mas essa literatura é tão “irreal” quanto a “realidade” da mídia. A verdadeira literatura, como a verdadeira arte em geral, não copia “fatos” para expô-los em “forma literária”, mas explora as relações entre nós e as coisas, e entre nós mesmos, para que a complexidade dessas relações configure um mundo tão denso que não se deixa reduzir à superficialidade dos “fatos”: um mundo que, fora da literatura e da arte, é pobre e sem graça, porque não é fundado no olhar do artista. Mas, dentro da boa literatura, esse mundo, de tão denso e provocador, se torna, enfim, um mundo real.