A lição do tigre

Recentemente, no Café Matisse (do Centro Integrado de Cultura, na capital, 1995) o ator e diretor Lau Santos lançou seu livro de poemas Negratitude. O tema da noite foi a "questão do negro", e alguns atores negros fizeram uma leitura de poemas e falaram sobre a situação do negro na sociedade de hoje.

É óbvio que o problema do negro, assim como o problema de outras minorias, continua atual e não resolvido. Mas lembremos que tampouco está resolvido o problema do branco pobre, desempregado, marginalizado. Em todo caso, outra coisa é falar de uma literatura negra, ou de uma arte branca, ou de um teatro feminino. Para mim, esses rótulos não definem muito. Se eu escrevo um poema cujo tema é a condição do negro, isso é literatura negra? E se um poeta negro escreve sobre a condição do branco...?

O poeta haitiano Anthony Phelps, em artigo publicado na revista cubana Anales del Caribe, escreveu: "Eu, negro da América, eu não sou um escritor negro-americano. Eu não sou um escritor afro-americano. Não existe literatura negro-africana na América. Não existe literatura negro-americana nem literatura afro-americana. Nós, negros do Novo Mundo, nós não somos africanos no exílio americano".

Mito: busca da identidade. Os nacionalismos e os regionalismos. "Cultura nacional", "cultura autóctone", "literatura independente" são etiquetas que escondem, quase sempre, a mística da origem. Buscar o "é", quando há apenas o "está".

Todo processo cultural é mistura: não há valor na origem, mas na atualidade de suas conseqüências, sua inserção no mundo de hoje.

Toda fixação definitória, todo congelamento na origem — na imagem de uma origem, porque não há origem — é uma ficção, e às vezes inclusive pode tender ao fascismo.

Ser brasileiro: o que me importa? Ser universal: o que me importa? Sacudir sempre a pessoa, do fundo de sua condição confortável ou miserável, inquietá-la, fazê-la desconfiar do mundo, das imagens do mundo: tanto faz se isso é realizado por um escritor canadense ou húngaro. Somos a contribuição do português, do índio e do africano? Mentira, não somos nada: estamos, estávamos, e o que será... Que será?

José Martí escreveu: "Enxerte-se o mundo em nossas repúblicas, mas o tronco há de ser o de nossas repúblicas". Perdão, Martí, mas qual é o tronco? O espanhol, o português, o capital inglês, o imperialismo estadunidense, o analfabetismo, o fascismo, o seriado de TV, a fotonovela, já são tronco. E agora, José?

Martí usou a imagem da árvore: fixa, imóvel, enraizada, em ascensão lenta. O que somos, ao contrário, é uma teia, mas sem centro: um tecido. Canibalizemos Sartre: o que importa não é a "raiz" nem o que se "enxerta" do exterior: importa o que fazemos de ambos. Cultura "pau-brasil" de Oswald de Andrade não existe: esse tronco já era, nunca foi. Não se trata de uma maneira de comer o Outro, idiossincrática, característica: se trata, antes de tudo, da qualidade da digestão, de sua força de desequilíbrio, de inquietação, de formular problemas. Nem origens nem pontos de chegada. Guimarães Rosa: "o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia". Grandes veredas.

A literatura, como a arte, não é melhor ou pior por ser escrita por negros ou amarelos. Por outro lado, é interessante que nenhum tema ou problema escape a elas, nem a "questão do negro". O que eu questiono é o uso de um rótulo para dar valor àquilo que não necessariamente o tem.

Os adeptos da "literatura negra", da "literatura gay" ou da "literatura feminina" deveriam ter em mente uma frase de um autor negro: "Um tigre não anuncia sua tigritude. Salta".

(Publicado no jornal A Notícia, 1995.)