A leitura necessária

Certa vez, há anos, um colega de trabalho me disse: “Nunca li um livro. Ler para quê? Não vejo nenhum sentido, nenhuma utilidade”. Confesso que fiquei estupefato, sem saber exatamente o que responder. Na verdade, mesmo hoje me seria difícil dar uma resposta satisfatória a essa indagação. Não penso que seja possível fazê-lo em definitivo ou para todas as pessoas. Posso, entretanto, dar um testemunho, falar da necessidade que tenho da leitura, sem que isso implique um discurso em prol de sua necessidade “universal”.

Não lembro que papel tiveram os livros na minha infância. Talvez, pequeno. Mas recordo que, na adolescência, comecei a ler com um ritmo intenso. Na escola, pegava livros na biblioteca, lendo mais exemplares do que aqueles que a professora de Português pedia que lêssemos. Eram, sobretudo, livros de literatura. Desde cedo, vislumbrei no mundo ao meu redor uma aura de insanidade e hipocrisia. Ainda criança, eu entendia que certas atitudes e palavras da maioria dos adultos não correspondiam à verdade nem à lógica que eu considerava mais óbvia e elementar – aliás, penso o mesmo até hoje. O meu entorno era corriqueiro e banal: a casa, a escola, brincar com amigos... Quando me deparei com a literatura, ela me tirava do dia-a-dia e me colocava diante de situações, pensamentos, problemas muito mais complexos, densos, ricos e apaixonantes. Estava na cara que o mundo da arte era mais interessante que o mundo concreto.

Com o tempo, quanto mais eu lia, mais eu entendia que as coisas que verdadeiramente me cativavam estavam nos livros. Mas é preciso advertir que não se trata de “fantasias” – por exemplo, livros de viagens, falando de terras “exóticas”, de “maravilhas” ou coisa parecida. Não, se tratava de coisas reais, da vida real, humana, mas que estavam ausentes no mundo concreto.

Foi assim que comecei a escrever, na adolescência. Sempre tive a curiosidade de querer fazer as coisas de que eu gostava. Por exemplo, gosto de comer, de provar pratos diferentes, muitas vezes acompanhava minha mãe em sua tarefa doméstica de preparar a comida, ajudando-a. Então, quis aprender a cozinhar, coisa que adoro e faço com muito prazer até hoje (tanto que cheguei a pensar em trabalhar com isso). Com a música, foi a mesma coisa. Essa arte – a mais fascinante para mim – estava a meu alcance. Então, aprendi a tocar bateria, flauta doce e violão – instrumento que continuo tocando. Com os livros, foi idêntico. “Eu também quero fazer isso”, devo ter pensado. Assim, me iniciei na literatura.

Quanto mais passou o tempo, mais eu fui compreendendo que os livros eram uma necessidade para mim. Pois se vivemos uma época de degeneração social e moral, de empobrecimento da experiência e do pensamento, quando o que mais circula em nossa vida cotidiana são discursos vazios, mentirosos, torpes e superficiais, os bons livros são uma espécie de espaço preservado da inteligência e da beleza. Não se trata simplesmente de uma “fuga” da realidade banal e concreta em busca de coisas belas – também é, pois todos temos direito à beleza. Mas é muito mais do que isso. Falo de todas as questões que dizem respeito a nós, seres humanos, e que tratamos de conversar, apresentar, discutir, trocar idéias entre nós sobre nossas próprias existências. Isso inclui a condição humana atemporal e também sua situação no mundo contemporâneo, o que pensamos, o que sentimos, como nos relacionamos. Tudo o que ajudaria todos a viver melhor, de alguma forma, se fosse dada a oportunidade de um verdadeiro acesso à leitura a todos.

É por demais óbvio, para mim, que os livros tratam da vida de uma forma infinitamente mais rica do que qualquer meio de comunicação – TV, jornal, revista, internet, o que for – e do que as conversas cotidianas – com os amigos, a família, colegas de trabalho, etc. De certo modo, como eu pressentia desde minha infância, o mundo concreto, do dia-a-dia, permanece, na maior parte das horas, banal, cinza, superficial. Mas o mundo da arte descortina uma complexidade cativante, que devolve à vida uma profundidade e uma beleza ausentes no cotidiano do mundo concreto. Chamo de “concreto” – para usar alguma palavra –, e não “real”, porque estou seguro de que a vida abordada nos livros é muito mais real do que a “vida” sugerida pela mídia ou mesmo pelas conversas comuns.

Então, a leitura significa para mim uma trégua na solidão. Sem ter com quem conversar, con-viver, de uma forma rica, interessante e bela, convivo com os artistas: os escritores – mas também os cineastas, os dramaturgos, os artistas plásticos, os filósofos... Todos pessoas altamente interessantes, cuja criação enriquece a minha própria vida, mas com quem eu dificilmente terei chance de um contato pessoal, em carne e osso. Daí eu entendi a necessidade da arte: uma forma de conversa paralela, virtual, em que meu interlocutor e eu podemos estar afastados milhares de quilômetros e mesmo distantes no tempo – posso ler um autor já morto, ele continua falando, dizendo coisas que são pertinentes à minha existência.

Dessa forma, a literatura (toda a arte) vence as distâncias temporais e espaciais. E mais: vence a distância entre eu e eu mesmo, entre a vida apenas banal que eu poderia sempre ter tido – recusando-me a ler – e a vida que, efetivamente, os livros me proporcionam.

Quero deixar claro, no entanto, que não considero que quem não lê tenha uma vida “infeliz”. O conceito de felicidade é muito equívoco, e não posso afirmar se eu, que leio, sou mais feliz do que os que não lêem. Possivelmente, é o contrário. Por não se aprofundar na complexidade – portanto, nas mazelas – de nosso mundo, alguém que não lê pode ter uma existência mais tranqüila e mais feliz. Portanto, a faculdade da leitura não é nenhum tipo de “superioridade”, uma solução ou um consolo. Simplesmente, para mim, que desde cedo vislumbrei essas mazelas de que o mundo é feito, os livros sempre foram uma saída. E uma prova de coragem. Pois todos têm a opção, mesmo tendo acesso aos livros, de fechar os olhos à complexidade – ao mesmo tempo bela e terrível – do mundo. No meu caso, decidi enfrentá-la.