“A flor do meu segredo”, filme de Pedro Almodóvar (1995)

O filme “A flor do meu desejo”, do espanhol Pedro Almodóvar (1995), provoca, como toda boa obra de arte, diversas leituras e reflexões. Uma das questões possíveis a serem tratadas (a que me diz respeito, que me toca, portanto, o que leio para mim), é o escrever, questão que vou pensar lendo também Roland Barthes.

No filme, quem escreve é Leo (a protagonista), além de Ángel, o jornalista. Leo é uma escritora que ganha dinheiro vendendo para o mercado, ou seja, escreve por encomenda, com balizas textuais determinadas pela editora. Há uma estratégia de produção de editoras de best-sellers como essa, cujas normas são lembradas a Leo: “nada de política, ausência de consciência social, sentimentalismo, amor/histórias de amor”, de preferência, claro, com final feliz. É uma cultura da ordem e do poder, a mesma gerada e alimentada todos os dias pelos meios de comunicação de massa: TV, revistas, jornais, livros, discos... Para Leo, essa escritura tem um excelente pagamento, uma recompensa que se traduz em férias no Caribe, dinheiro, vida “independente”, etc. Mas não a fama, pois Leo não quer aparecer ao público, ela assina com um pseudônimo. De um certo modo, ela não deseja participar de todo o circo montado pela mídia como escritora de best-sellers. Leo quer manter, ao menos esse um anonimato, preservar a identidade dessa outra Leo, não a escritora, mas que vê nessa atividade algo condenável. Esse anonimato se dá pelo uso do pseudônimo Amanda Gris. Amanda nos faz pensar em amor (amando/Amanda), mas um amor irônico, pois se trata de um mero sentimentalismo barato disseminado em seus textos. Gris, por outro lado, em espanhol, é cinza: sem destaque, sem distinção (una persona gris) (anonimato); sem brilho (día gris); (se quisermos criar mais sentidos, gris também era o uniforme da Polícia Nacional, los grises = os policiais, ou seja, a cor da ordem e da repressão). Portanto, há uma conjunção, aqui, entre escritura para o mercado, anonimato (perda de identidade), lucros, mídia e poder. Portanto, Leo pratica uma escritura da esfera da mercadoria e da ordem, sem ancorar-se no que faz de alguém que escreve um escritor, ou seja: o que Roland Barthes chama de “o desejo de escrever”, que, na verdade, é uma necessidade.

Mas o conflito apresentado por Almodóvar se dá, justamente, pela crise em que Leo se encontra, num casamento que está terminando, sem chances de continuar, o que, ao mesmo tempo, estando a escritora solitária na cidade, a faz dar passo arriscado, propondo à editora um outro tipo de texto, muito diferente daqueles que a editora exige, texto esse do qual uma funcionária da editora reclamará, por conter um enredo com um negro e viado, mostrando o racismo e o sexismo do mercado. Há o risco de Leo perder o contrato com a editora, mas ela está disposta a não voltar atrás. Começa aí o desejo de se tornar uma verdadeira escritora, mostrar um texto que é para ela uma necessidade interior, e não um produto lucrativo.

A própria Leo admite isso que o texto de Amanda Gris (seu pseudônimo) “é mentira, não literatura”, e que “a única qualidade de Amanda Gris é ocultar-se atrás de um pseudônimo”. Há um conflito entre a realidade e seu desejo: Leo está fora de lugar . No filme, o diretor monta uma cena irônica, com Leo ao telefone num bar, com touca, cachecol e luvas, e na parede ao fundo a imagem de uma praia tropical...). Obscenidade (que significa “fora de cena, fora de lugar”): o amor é obsceno (ou diríamos: o desejo, como sugere Barthes em Fragmentos de um discurso amoroso). Mais que isso: o desejo de mudar, de assumir sua identidade, ou mesmo o desejo per se se torna, numa cultura marcada pela mídia e pelo lucro, algo deslocado (fora do lócus, do local apropriado).

Em contraponto a Leo, temos Blanca, a empregada que também é bailarina de flamenco. Ela também tem que sobreviver, por isso trabalha com responsabilidade, mas não “vende” algo com o falso rótulo de “arte” para sobreviver, inclusive resiste à proposta de seu filho de apresentar-se como bailarina, pois considera que não está mais preparada.

Por fim, a vida da escritora Leo atinge o ápice da crise: é o fim de seu relacionamento amoroso com Paco, que é um militar trabalhando no exterior. Podemos pensar em outra ironia de Almodóvar, associar o aspecto policial/militar da vida de Leo com a esfera da cultura, ou seja, mostrar a incompatibilidade entre essas duas ordens. Há também (sem que isso deva ter uma relação causal) uma crise de identidade da escritora. Ela passa a escrever literatura “negra, em vez de “cor-de-rosa”. É esse texto pelo avesso, escuro, que ela entrega à editora, e por isso Leo é repreendida. A música “A flor do meu segredo”, que dá nome ao filme, é do cubano Bola de Nieve e fala em “dolor y vida” (dor e vida). Longe, portanto, do clima “água-com-açúcar” exigido pela editora. Ao jornalista Ángel, de quem se aproxima para tentar publicar algo no jornal El País, Leo afirma: “Só quero ser clara e sincera”. O que seria impossível se continuasse escrevendo literatura para mercado. No jornal El País, escreve contra Amanda Gris. A seu marido (o militar), confessa que está feliz por escrever algo “de que gosta”. Nesse momento, a imagem no filme parece um confessionário, no qual Leo fala ao militar: de novo, uma ironia de Almodóvar, juntando à esfera de poder já desenhada com a mídia e o poder, inclusive militar, a esfera da Igreja, fortíssima e tradicional na Espanha de Franco, o fascista que ficou muitos anos no poder, desde a frustrada Guerra Civil Espanhola. Ora, como lembra Roland Barthes em Aula, “fascismo é obrigar a dizer”. Ao jornalista Ángel, Leo diz que “quer escrever sobre literatura” e “só do que gosta” e, portanto, não ser mais obrigada a escrever o que a editora lhe exige. Ao mesmo tempo, ela demonstra admiração por escritores que não se entregaram ao mercado acriticamente, como Julio Cortázar, Virginia Woolf, Djuna Barnes...

Há aí dois passos perigosos: Leo decide escrever no jornal, mas também com um pseudônimo (tem medo de se revelar), e escreve um romance diferente para a editora (“negro” em vez de “cor-de-rosa”), que causa o conflito com o mercado. Há três enfrentamentos: com a editora (rompimento do contrato, possível processo contra ela); com o jornal (Quando ela diz que seu ato “é um atrevimento”, que ela quer “escrever sobre literatura”, toca uma sirene na gráfica do El País (alarme! Não é qualquer coisa que pode ser dita na imprensa...); com o marido (a palavra paco significa polícial), militar, ou seja, de novo a ordem, o dever...

Boa parte de imprensa, como toda indústria cultural, vive da mercadoria, do texto como mercadoria. No filme, vemos uma imagem da enorme propaganda de Amanda Gris na FNAC, um outdoor expondo-a como um produto. Ángel (o jornalista), dentro da gráfica do jornal, afirma, entre as máquinas: “Se isto não funciona, El País não funciona”. Mas também podemos entender (sem as legendas): “Se isto não funciona, o país — a Espanha — não funciona” (o poder se apóia na imprensa, e vice-versa).

Ángel, como bom mercador, passa a escrever romances imitando Amanda Gris, que envia à editora como se tivessem sido escritos por Leo. Salva, assim, Leo (em quem está interessado), dá matéria para seu próprio jornal (ele mesmo escreve artigos a favor de Amanda Gris — mas com pseudônimo...) e, ainda por cima, ganha dinheiro (porcentagem de Amanda Gris). Pois, ao contrário de Leo, ele adora “literatura cor-de-rosa”. Circuito: imprensa, editoras, escritores por encomenda. Anjo (ángel) que ajuda Leo, mas não tem nada de angelical...

Outra ironia de Almodóvar: com todas essas histórias escritas para vender, a coleção da editora se chama “Amor verdadeiro”...

Resultado: Leo está “louca” (diz a editora). E ela responde: “talvez” (ela grifou uma expressão num livro de Djuna Barnes que diz: “o assédio da loucura”). Leo se recusa a escrever para o mercado, quer escrever segundo seu próprio desejo: para o mercado, é uma loucura. Como escreve Barthes no Fragmentos de um discurso amoroso: “É louco aquele que é depurado de todo poder”; “é não poder evitar ser um sujeito [no amor, no desejo] que me torna louco”. Não é me anular em um outro (o marido, a editora...): “eu sou louco porque eu consisto [não porque me despersonalizo no outro]”.

Uma das questões apresentadas por Almodóvar em “A flor do meu desejo” pode ser: é possível, nessa civilização da cultura como mercadoria, das subjetividades tecidas pela indústria cultural e pelas noções de Ordem, Lei, Pai, etc., o amor? É possível manter uma identidade (a verdadeira Leo, e não Amanda Gris)? É possível uma escritura (uma arte) livre?