A arte radical de Jayro Schmidt

No último dia 22 de agosto (1995), houve a vernissage da exposição de Jayro Schmidt na Galeria da UFSC, aqui na Ilha de Santa Catarina. São pinturas dos anos 1990, além de seu trabalho mais recente: quatro telas sem pintura, colocadas uma ao lado da outra no chão. Em cima delas, diversos objetos que reconstroem um percurso da vida do artista: cadernos, livros, fotos, tubos de tinta, pedras e conchas colhidas na Enseada de Brito, e até um filme realizado por Jayro, misterioso dentro de sua lata metálica.

A pintura de Jayro Schmidt vem desafiando os limites de sua própria linguagem, partindo para uma fronteira móvel que incorpora objetos e discute o próprio exercício pictórico. Poeta da imagem, pensador que expressa sua contemporaneidade pelo gesto, pintor que também escreve, Jayro Schmidt está o tempo todo provocando a arte com seu olhar indagador. Para que serve a pintura? O que vale a pena discutir através — ou além — dela? Qual o sentido de expor algo?

Ao contrário de muitos artistas que trabalham para vender, para satisfazer um certo público ávido por "belas obras" ou para acumular dados em seu currículo, Jayro Schmidt foge do mero formalismo e da superficialidade para provocar uma reflexão sobre a atividade artística nos dias atuais. Daí sua preocupação constante em não esquecer Rimbaud, Baudelaire ou Mallarmé, poetas do abismo, do silêncio e das perguntas pelo lugar da arte e da poesia num mundo coberto pela mediocridade. Daí também porque Jayro Schmidt chega a trabalhar por um certo anonimato como pintor — apesar de freqüentar a imprensa com textos sempre instigantes sobre as artes.

Para Fernando Pessoa, "a arte é uma forma de crítica, porque fazer arte é confessar que a vida ou não presta ou não chega". A arte de Jayro Schmidt nunca deixa de apontar para essa falta: a ausência do desejo, a inércia, a mesmice das imagens e das palavras, a mistificação de pretensos "artistas" que não fazem outra coisa que produzir uma saturação de "pinturas", "esculturas" e outras "obras de arte" destinadas à promoção pessoal ou a um público que só se preocupa em decorar a sala de jantar.

Não que a pintura de Jayro não seja "bela". Ela é, mas sua beleza está associada ao desconhecido, ao intrigante, ao que é fascinante, não por pretender "decorar" um espaço, mas sim abalá-lo, comovê-lo como um gesto revoltado que, ao destruir, cria a possibilidade de uma experiência nova.

E essa experiência é extremamente ligada à vida. Na obra de Jayro Schmidt, a presença do cotidiano, da memória e do corpo não se dá de forma gratuita, mas atende à exigência de uma conexão íntima entre pensar sobre o lugar da arte no mundo atual e sentir na própria pele a experiência da solidão e da marginalidade. Por isso, em seu último trabalho, os objetos pessoais, os registros de um passado próprio, os signos de uma história individual questionam um "abstracionismo" que busca imagens "universais" e reivindicam a presença do sujeito articulador da obra. Mas esses objetos não são meros aspectos de uma vida pessoal sem interesse para a "arte". Pelo contrário, sua presença reforça a reflexão de Jayro Schmidt em torno das relações entre arte e vida. Em vez de uma arte fria e desinteressada, disposta a apenas construir imagens agradáveis, o que Jayro busca é não esquecer que o corpo e a memória estão imersos em toda a obra. Sua pintura aponta para uma reflexão não só sobre a pintura, mas sobre o próprio sujeito dentro de uma sociedade que é cada vez mais massificada e homogeneizada pelo bombardeio de imagens da mídia.

Artista preocupado com a cultura contemporânea, leitor e debatedor de temas da Arte, da Literatura e da Filosofia, conhecedor da história da arte e com um trabalho que também já passou pela gravura, pelo desenho e pela produção gráfica — recentemente incluindo o trabalho em computador -, Jayro Schmidt é hoje um dos pintores vivos mais importantes que atua entre nós.

Essa exposição na Galeria da UFSC marca a trajetória recente de Jayro pelos anos 1990. Mas é necessário salientar que 1995 marca uma vida dedicada à arte que completa 30 anos. Nenhuma instituição de Santa Catarina, ao que parece, se lembrou disso, ocupadas que estão, na maior parte das vezes, em usar o dinheiro público para celebrar personalidades e eventos que envolvam dividendos políticos e construam uma imagem convincente da ação pública do terreno cultural — que não existe.

Melhor para Jayro Schmidt, que realiza seu trabalho, não para conquistar uma fama, um cargo ou um lugar em alguma academia, mas para nos lembrar que a arte mais conseqüente é aquela que recupera dos grandes artistas a necessidade visceral do questionamento dos nossos modos de vida, de nossa condição como pessoas agredidas pela violência de uma sociedade hipócrita e da precária condição da cultura nos dias atuais.